Viver no estado novo catarina vitorino

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noViver

Catarina VitorinoN2 12LH2Histria AFevereiro de 2012Prof. Ana Cristina Ferreira

Escola Secundaria de Peniche

ndice

ndice1ndice de Ilustraes2Introduo3Maria Alzira Meca4Annimo6Jos Manuel e Maria Regina Vitorino8Ana Paula Sousa12Concluso15Anexos16Observaes17

ndice de Ilustraes

Fig. 1 Sra. Maria Alzira Meca4Fig. 2 - A sua filha Natalina na escola primria5Fig. 4 - Sr. Jos Manuel Vitorino8Fig. 5 - Sra. Maria Regina Vitorino8Fig. 6 - Jos Manuel quando chegou Guerra Colonial8Fig. 10 - Uma das fotografias enviadas por Jos para Maria enquanto estava em Cabinda10Fig. 12 - Minas antipessoais desarmadas.10Fig. 13 - Jos Manuel com nativos.11Fig. 14 - Sra. Ana Paula Sousa12Fig. 15 - Ana Paula em criana com os seus amigos12Fig. 16 - A sua turma da 4 classe12Fig. 17 - Nesta fotografia podemos ver com bastante clareza as tendncias da altura.13Fig. 18 - Ana Paula a estudar j na Escola Industrial e Comercial, actual Escola Secundria de Peniche14

Introduo

Existe muita informao nos livros sobre o Estado Novo, mas a grande verdade sobre esta poca controversa portuguesa est na boca de quem a viveu na pele.Para tal constatao, foram feitas 5 entrevistas a pessoas distintas: a primeira a Maria Alzira Meca (minha av materna), a segunda a um senhor (utente do Lar de Sta Maria, Peniche), a terceira a Jos Manuel Vitorino (meu tio), a quarta a Maria Regina Vitorino (minha tia e esposa do ultimo) e por fim a Ana Paula Sousa (minha tia e madrinha).As entrevistas decorreram quase no desconhecido, seguindo apenas um guio de questes pois muitas das respostas foram altamente surpreendentes e improvveis.No decurso deste trabalho podemos encontrar relatos das condies de vida e de memrias desta poca, as opinies sobre Salazar, comparaes com os dias de hoje e defensores da Ptria como apoiantes revolucionrios.Nota: As entrevistas foram todas elas gravadas e transcritas encontrando-se em formato digital num CD-ROM nos Anexos e todas as expresses entre aspas ao longo deste trabalho, so excertos dos testemunhos.

TestemunhoMaria Alzira Meca

Fig. 1 Sra. Maria Alzira MecaMaria Alzira Meca, 82 anos, natural da Nazar, viveu grande parte da sua vida, especialmente no decurso do Estado Novo, no Campo da Repblica[footnoteRef:1], junto ao Forte de Peniche. [1: Tambm conhecido localmente como Campo da Torre que toda a zona circundante do Forte de Peniche.]

A sua infncia foi passada na sua terra natal e tal como grande parte das famlias portuguesas vivia na pobreza. Passou dias inteiros sem comer, tal como os seus irmos e o seu pai que andava em jejum e a subir pinheiros para partir lenha para venderem para que pudesse entrar mais alguns trocos na carteira pois viviam com um nico ordenado, o do pai pescador pois a madrasta ficava em casa a tomar conta dos filhos e da casa, conforme se ganhava, sendo as suas brincadeiras brincar com os rapazes e com as raparigas, pois no havia [dinheiro] para comer quanto para comprar brinquedos e ainda era tratada como um penhor, tal como os irmos, vendo as suas roupas e loias empenhadas.Sendo a mais velha de 5 irmos, aconteceu-lhe o que era comum nessa altura: no frequentou a escola, o que ainda hoje a deixa desgostosa, mas ao qual facto nunca se agarrou e aprendeu a desenrascar-se ao longo da sua vida. Como ficou sem me ainda beb, teve de ficar em casa a cuidar dos irmos, pois era ela que os desmamava e com os seus 10, 11 anos, o pai p-la a trabalhar, descala, podendo s comprar o seu primeiro par de sapatos aos 25 e ainda assim andava descala ao de semana, s aos domingos que os calava, ganhando 100 escudos[footnoteRef:2] para () viver durante 3 meses depois ter ter-se visto obrigada a abandonar a casa do pai para trabalhar. [2: Actualmente, 50 cntimos (0,50).]

Entretanto comeou a namorar, um namoro um pouco complicado, ela na Nazar e ele em Peniche, contudo quando se encontravam j no precisavam de ningum a tomar conta pois j eram grados. E depois da chegada dela a Peniche, casaram-se e no houve melhoras no nvel de vida. Agora trabalhava na ribeira e o cnjuge era pescador. Foi me de 5 filhos porm, um falecera nascena como muito acontecia nessa altura e os seus 2 filhos homens, mais tarde, foram obrigados a alistar-se no exrcito. Ambos entraram com aproximadamente 20 anos e cumpriram 16 meses de servio cada um, mas foram para destinos diferentes: o mais velho foi tomar conta de cavalos, o outro ingressou em Santa Margarida, estando na primeira linha para as guerras ou o que fosse necessrio, era perigoso. No entanto, nunca chegou a saber o que os filhos l faziam ao certo e o que passavam porque eles nunca lhe contaram nada sobre o assunto para alm do indispensvel.Apesar de viver numa ditadura, sabia que tinha que haver respeito pela Nao incutido por Salazar e que faz falta nos dias de hoje. Contudo, tinha a perfeita noo que vivia numa poltica repressiva que, ao incio, tinha medo porque via os elementos da PIDE espreita () E tudo pensava que andavam a espreitar algum para levar preso, e era. Mas com o passar do tempo, comeou a deixar de temer porque sabia que no havia motivos para o ter, apesar de perceber pouco do assunto e foi tambm tendo conhecimento do que se passava dentro das muralhas do Forte, era uma pouca-vergonha. Conta, desiludida, que os da PIDE at cuspiam para o prato onde que eles [os prisioneiros] estavam a comer, para alm de que chegavam a ir buscar pessoas cama para os levarem presos pois por tudo e por nada levavam as pessoas presas.

Fig. 2 - A sua filha Natalina na escola primriaFinalmente o desejado dia de liberdade tinha chegado. Como morava junto ao Forte, Maria Alzira e a famlia viveram com grande proximidade, medo e ansiedade a Revoluo dos Cravos: Fui eu que ganhei medo. Fui a correr buscar a Natalina [filha] escola e encontrei um militar e me disse: Oh minha senhora, para onde que voc vai a correr?, Vou buscar a minha filha que est na escola!, Volte para trs, v para a sua casinha que no h nada.. Foi a resposta que ele me deu. E no fui busc-la. E esse militar no se tirava de p da porta da gente at o ter l em casa e tudo, dizia relembrando o dia com um certo brilho de esperana, entretanto perdida com a situao crtica do pas, nos olhos.A esperana que vira nesse dia, est agora arruinada. Considera que o estado actual do pas pior que o desta altura, pois prev uma economia semelhante da altura e tanta ou mais fome que a que passava na altura que mesmo com as vizinhas a oferecerem antes queria estar sem comer. Dizia que tinha a barriga cheia.No final da entrevista, relembrou a fuga de lvaro Cunhal, da priso poltica. Afirma no ter assistido, mas lembra-se de ouvir comentrios do sucedido e de ter fugido com lenis a fazer de corda para um barco que o esperava.Recorda ainda hoje, esta poca como uma poca de medo e de muita fome para todos os que l viveram.

TestemunhoAnnimo

Natural da Coimbr, diz-se ter sido o chefe da PIDE em Peniche.Cresceu a trabalhar, de pequenininho () Nas terras, nas fazendas do seu pai, tal como os seus 11 irmos, o que os impediu de ir escola mas que lhe deu emprego para toda a vida, porque na sua altura no havia o desemprego, e aos 21 anos apresentou-se no servio militar e concluiu 18 meses de Praa no tempo da [Segunda] Guerra Mundial.A vida era difcil e o sustento era o que as terras davam. Como muitas outras famlias desta altura, as roupas eram escassas e mesmo rotas tinham de servir, pondo um remendo aqui e outro ali, naquele tempo era tudo remendado e passavam de irmo para irmo consoante ia deixando de servir.Ao contrrio das liberdades actuais em que anda tudo vontade, na poca de Salazar os namoros no eram assim to liberais. Que o diga o este senhor que s podia namorar s quintas e aos domingos e porta. Depois casou-se e teve 6 filhos.Pois tinha! Salazar que era um homem!, foi a resposta eufrica pergunta: Tinha amor Nao?, que me deu. Cumpria risca as Lies de Salazar e afirmou-se vrias vezes um homem crente, nacionalista e valorizador da famlia, o tpico Homem Novo que Salazar queria criar e sempre lhe prestando culto e pondo a mulher sempre no lugar exigido por Salazar: cuidando dos filhos e da casa.A maior prova do seu nacionalismo e amor Nao a sua dita ligao com a PIDE: O chefe da PIDE em Peniche fui eu!. Com esta revelao, tentei descobrir algumas informaes sobre a PIDE, contudo com pouco sucesso porque o senhor aps a revelao do seu estatuto, comeou a tentar fugir ao assunto, como quando me disse que no Forte apenas se guardavam os presos, fugindo a dizer-me os maus-tratos que lhes provocavam. Informou de que a PIDE aqui em Peniche era no Forte e era atrs da Cmara onde ele estava. Justificou as prises pela PIDE com crimes de roubo, assassinato e, o maior receio das pessoas, suspeitas de desrespeito a Salazar e ao regime e ainda negou haver qualquer tipo de escutas nas estaes de rdio, justificando-se dizendo que naquele tempo s havia electricidade com uma pedra e com uma tbua () s com o vento que havia electricidade () Hoje est tudo rico!.Como de esperar, o 25 de Abril de 1974 seria uma terrvel notcia para este senhor. Para ele, esta quinta-feira de feira c em Peniche, foi a entrega das fricas todas, mas no o fim da PIDE: A PIDE no acabou ainda! Ainda h a PIDE, a mesma!. Contudo, mostrava-se revoltado e at enraivecido em falar neste dia que mudou o fado portugus.Este acontecimento afectou-o de tal modo que no se lembra do que se sucedeu Revoluo dos Cravos e negava-se a aceitar a ideia de a Ditadura Salazarista ter visto termo. Estes factores levaram a que acabasse por endoidecer e ter de se mudar imediatamente a seguir Revoluo para as Brancas, em Leiria, uma quinta, que curava as pessoas. No fim da nossa conversa, demonstrou as saudades que sente de Salazar, que tinha salvado a Ptria e que era um homem direito! Quer tudo direitinho!. E ainda quis deixar bem explicito que a PIDE era secreta e que no chegou ao fim.

Testemunho