Richard Matheson Eu Sou A Lenda

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Transcript of Richard Matheson Eu Sou A Lenda

  • 1. Richard Matheson Ttulo original: I Am Legend Traduo e Reviso: Jean Steeler 1954 by Richard Matheson ISBN: 958-16-0201-1
  • 2. I - Janeiro de 1976 Captulo 1 Naqueles dias nublados, Robert Neville no sabia com certeza quando se poria o sol, e s vezes eles j ocupavam as ruas antes de que ele retornasse. Durante toda sua vida, a hora do crepsculo estava relacionada com o aspecto do cu, e geralmente, preferia no se afastar muito. Passeava ao redor da casa, sob uma luz cinzenta e dbil, com um cigarro na boca e um fio de fumaa por cima do ombro. Comprovou que as janelas no tinham nenhuma madeira solta. Os ataques mais violentos deixavam tbuas quebradas ou meio arrancadas, e devia remend-las. Odiava esta tarefa. Hoje felizmente, s faltava uma tbua. Quando esteve no ptio revisou a estufa e o reservatrio. s vezes os ferros que cobriam o depsito se afrouxavam e os encanamentos estavam retorcidos ou rotos. s vezes, na estufa, as pedras que eles jogavam por cima do muro quebravam os vidros e tinha que troc-los. Mas o depsito e a estufa estavam intactos nesta ocasio. Retornou a casa. Quando abriu a porta da rua, apareceu no espelho uma imagem de si mesmo, absolutamente distorcida. Fazia um ms que tinha pendurado ali aquele espelho rachado. Ao cabo de poucos dias, algumas partes caam no alpendre. Pode cair inteiro, pensou. No tinha idia de pendurar ali outro maldito espelho; no valia a pena. Em troca, havia posto algumas cabeas de alho. Dariam melhor resultado. Cruzou lentamente a sala, perdida no mais absoluto silncio, virou pelo escuro corredor da esquerda, e entrou no dormitrio. Em outro tempo, a casa havia estado abarrotada de adornos, mas agora tudo era completamente funcional. Como a cama e a escrivaninha ocupavam muito pouco espao, tinha convertido uma parede em depsito. Na prateleira podia-se encontrar um serrote, um torno e uma pedra de esmeril. E na parede, um mostrurio completo de ferramentas. Neville agarrou o martelo e encontrou, no meio da desordem de uma caixa, uns tantos pregos. Tornou a sair, e fixou rapidamente a tbua que se danificou, cravando os pregos restantes na prxima porta cada. Permaneceu ali durante um momento, de p no jardim, contemplando a rua larga e silenciosa. Era um homem alto, tinha trinta e seis anos e sua descendncia era inglesa e alem. Em seu rosto, nada chamava especialmente a ateno, exceto a boca, larga e firme, e os brilhantes olhos azuis, que observavam agora as runas das casas vizinhas. Tinha-as queimado para evitar que se aproximassem pelos telhados. Passados alguns minutos, respirou fundo e voltou a entrar. Jogou o martelo sobre o sof da entrada, acendeu outro cigarro e tomou a xcara-de-caf da manh. Pouco depois entrou na cozinha a contra gosto. Devia desfazer-se do lixo acumulado na lixeira. Devia tambm queimar os pratos e copos de papel, e tirar o p dos mveis, e lavar a pia e a banheira, e trocar os lenis e a capa do travesseiro. Mas vivia sozinho, e essas coisas podiam esperar. Ao meio-dia, Neville estava na estufa recolhendo cabeas de alho. No princpio, seu estmago no podia suportar o aroma de alho. Agora o tinha impregnado nas roupas, e s vezes pensava que at na pele, e quase no o notava. Quando lhe pareceu que tinha o suficiente, voltou para casa e os colocou na pia da cozinha. Acionou o interruptor da parede. A luz vacilou uns instantes antes de brilhar normalmente. Neville deixou escapar um estalo de desgosto entre as mandbulas apertadas. Outra vez o gerador. Teria que repassar o maldito manual e verificar os cabos.
  • 3. E se a reparao era muito complicada, deveria comprar um novo gerador. Sentou-se, mal-humorado, em um tamborete junto a pia da cozinha e tirou uma faca. Primeiro, foi separando os pequenos dentes rosados entre si, logo os cortou pela metade. O acre e penetrante aroma inundou a cozinha. Ps em funcionamento o aparelho de ar condicionado e a atmosfera ficou bastante limpa. Logo, com uma agulha, fez um buraco em cada metade dos dentes e os atravessou com um arame at formar uns vinte e cinco colares. No princpio pendurava estes colares nos vidros, mas a pedrada o teria obrigado a tapar todos os vidros com madeira cruzada. Finalmente teria substitudo estas madeiras pelas tbuas, como se a casa tivesse se convertido em um lgubre sepulcro; mas teria posto fim aquela chuva de pedras e vidros quebrados que entrava todas as noites nas casas. E uma vez instalados os trs aparelhos de ar-condicionado, pde-se respirar melhor. Um homem pode acostumar-se a tudo. Quando teve os colares terminados, saiu e os cravou nas tbuas das janelas, e retirou logo os velhos porque j tinham perdido quase todo o aroma. Realizava este trabalho duas vezes por semana. No teria outra forma de defender-se melhor que esta, no momento. Defender-se?, pensava freqentemente. Para qu? Durante a tarde, passou o tempo fazendo estacas. Com a ajuda do torno reduzia as toras de madeira em estacas de vinte centmetros. Em seguida, lhes afiava a ponta na pedra de esmeril. Era um trabalho cansativo e montono, e a serragem flutuava no ar com seu morno aroma e lhe penetrava nos poros e nos pulmes, e lhe provocava tosse. Mas as estacas nunca eram suficientes, independentemente de quantas fizesse. E os toras escasseavam-se cada vez mais. Logo teria que usar pranchas. Pensou, irritado, que isso seria o cmulo. Tudo era muito deprimente e devia pensar em mudar-se. Mas como, se no podia dedicar nem um minuto a pensar? Enquanto torneava, o alto-falante do dormitrio deixava chegar o som da Terceira, a Stima e a Nona de Beethoven. Com a msica enchia o terrvel vazio do tempo. A partir das quatro da tarde comeou a contemplar o relgio de parede. Trabalhava em silncio, com os lbios apertando o cigarro, os olhos cravados na furadeira que varava a madeira semeando o cho de um p esbranquiado. Quatro e quinze. Quatro e meia. Cinco para as cinco. S faltava uma hora e os asquerosos bastardos rodeariam a casa. Logo que o sol se pusesse, apareceriam. Deteve-se diante da enorme geladeira para escolher seu jantar. Os olhos indecisos passearam pelas carnes, os vegetais congelados, os pes e os bolos, as frutas e cremes. Tirou ao fim duas costelas de carneiro, umas ervilhas e uma garrafa de suco de tomate. Em seguida, empurrou a porta com o cotovelo para fech-la e se aproximou das latas de conserva que se empilhavam at o teto. Tomou um copo de suco de tomate e saiu do cmodo. Em outro tempo Kathy dormia ali. Agora era o refgio de seu estmago. Cruzou a sala. O mural que tampava a parede do fundo mostrava um escarpado, com um formoso oceano verde e azul. As ondas se rompiam contra umas rochas negras. Muito acima, no cu azul, as gaivotas estavam suspensas no ar, e direita uma rvore torta pendurava-se sobre o abismo e os ramos escuros ficavam recortados contra o cu. Neville entrou na cozinha e deixou cair os mantimentos sobre a mesa, com os olhos fixos no relgio. Cinco e quarenta. Faltava pouco.
  • 4. Ps um pouco de gua em uma panela e a esperou que fervesse. Em seguida tirou a carne do gelo e a colocou na churrasqueira. Quando a gua estava no ponto, colocou as ervilhas na panela. O mau funcionamento do gerador, sem dvida, era devido cozinha eltrica. Na mesa cortou duas fatias de po e se serviu um copo de suco de tomate. ficou olhando o ponteiro dos segundos que girava lentamente na esfera do relgio. Depois de beber o suco de tomate foi at a porta e saiu ao alpendre. Deu uns passos mais, atravessou a grama e chegou calada. O cu estava se enegrecendo e soprava um vento frio. Olhou ao longo da rua. Chegariam a qualquer momento. Oh, na verdade, no eram piores que aquelas malditas tormentas de areia. Encolheu-se de ombros, atravessou o jardim e tornou a entrar na casa. Fechou a porta com chave e colocou a tranca em seu lugar correspondente. Retornou cozinha, virou s costelas de carneiro e apagou a chama aonde ferviam as ervilhas. Estava servindo o jantar quando se deteve para olhar o relgio. Hoje tinham chegado s seis e vinte e cinco. Ben Cortman gritava: Saia, Neville! Neville se sentou e comeou a comer, suspirando. Depois de jantar, na sala, tratou de ler. Preparou um usque com soda e tinha-o na mo enquanto folheava um texto de fisiologia. Do alto-falante instalado na porta do vestbulo chegava, a grande volume, uma obra de Shoenberg. No soa bastante alto, pensou. Ainda os ouvia l fora. Ouvia seus murmrios e seus passos, seus gritos, seus grunhidos e suas brigas. De vez em quando, uma pedra ou um tijolo golpeavam a casa. s vezes ladrava um co. E todos se reuniam ali para o mesmo. Fechou os olhos por um instante. Logo acendeu um cigarro com resignao e deixou que a fumaa lhe enchesse os pulmes. Se tivesse tempo isolaria a casa e evitaria os rudos. Tudo seria melhor se no tivesse que escut-los. Ainda depois de seis meses lhe destroavam os nervos. J nem sequer os olhava. princpio teria aberto um buraco na porta para espion- los. Mas um dia, as mulheres se deram conta e lhe incitavam a sair da casa com gestos obscenos. Deixou o livro e cravou os olhos no tapete, escutando a msica do Verklrte Nacht. Podia colocar tampes nos ouvidos e no ouviria os rudos da rua; mas ento to pouco ouviria a msica, e no queria ficar encerrado em uma carapaa. Voltou a fechar os olhos. A presena das mulheres complicava as coisas, pensou; as mulheres, como bonecas lascivas na noite. Esperavam lhe provocar e fazer com que se decidisse a sair. Estremeceu-se. Todas as noites acontecia o mesmo: Comeava a ler e a escutar msica. Em seguida pensava em isolar a casa, e finalmente pensava nas mulheres. De novo aquele calor insuportvel nas vsceras. Conhecia muito bem aquela sensao e lhe enfurecia no poder domin-la. O calor era cada vez mais forte, at que tinha que se conformar e passear pela sala com os punhos apertados. Ento acendia o projetor e via um filme, ou comia muito, ou bebia muito, ou aumentava o volume da msica at machucar os ouvidos. Sentiu que o estmago lhe retorcia como um arame. Pegou o livro e tentou ler, concentrando-se em cada palavra. Mas um segundo depois o livro estava outra vez sobre seus joelhos. Olhou para a biblioteca. Aquela sabedoria no acalmaria nunca seu fogo; sculos e sculos de palavras no podiam satisfazer aquele desejo imperativo e irracional. Sentiu-se doente, humilhado. Tinham-lhe terminado todas as possibilidades. Tinham-no obrigado ao celibato, e devia assumi-lo.
  • 5. Estendeu a mo, aumentou o volume da msica e tratou de ler uma pgina inteira sem deter-se. Leu algo sobre corpsculos sangneos que atravessam membranas, e plidas linfas e ndulos linfticos, e linfcitos e fagcitos... quot;...para terminar no ombro esquerdo, perto do trax, em uma das veias largas do sistema circulatrio...quot; Fechou o livro de um golpe s. Por que no lhe deixavam tranqilo? Acreditavam que seria de todos? Eram to estpidos? Por que vinham todas as noites? Depois de cinco meses podiam ter desistido e tentar a sorte em outro lugar. Foi at o bar e se serviu de outro copo. Enquanto voltava para seu lugar ouviu que umas pedras rolavam pelo telhado e caam entre os arbustos do fundo da casa. Alm disso, do rudo das pedras, ouviam-se os acostumados gritos de Ben Cortman: Saia, Neville! Algum dia agarrarei a esse bastardo, pensou enquanto bebia de um gole o amargo lquido. Algum dia o encontrarei e lhe cravarei uma estaca, bem no meio do seu maldito peito. Amanh. Amanh isolaria a casa. No queria pensar mais nas mulheres. Se a isolasse possivelmente deixaria de pensar nelas.A msica cessou e Neville tirou os discos do prato e os guardou em suas capas. Agora os sons da rua lhe chegavam claramente. Apanhou um disco qualquer, ps no toca-disco e aumentou o volume. O ano da praga, de Roger Leie, encheu-lhe os ouvidos. Os violinos chiavam e gemiam; os tambores soavam como os batimentos de um corao agonizante; as flautas tocavam uma estranha melodia tona. Tirou, furioso, o disco, e o quebrou em seu joelho direito. Fazia tempo que desejava faz-lo. Caminhou logo rigidamente at a cozinha e jogou os pedaos no balde de lixo. Ali permaneceu um momento, na escurido, com os olhos fechados e apertando os dentes, tampando os ouvidos com os punhos. Me deixem s, me deixem sozinho, me deixem sozinho! Era intil. No podia venc-los de noite. Era intil tent-lo; a noite lhes pertencia. Estava comportando-se como um estpido. Faria melhor ver um filme, mas no, no tinha vontade de instalar o projetor. Iria em seguida cama com tampes nos ouvidos. Ao fim e ao cabo, assim terminavam todas as suas noites. Rapidamente, tratando de no pensar em nada, entrou no dormitrio e se despiu. Colocou as calas do pijama e foi ao banheiro. Nunca usava camisa para dormir. Tinha se acostumado no Panam, durante a guerra. Olhou-se no espelho enquanto se lavava. Contemplou o peito largo e peludo e a tatuagem que lhe tinham feito no Panam, uma noite. Durante uma bebedeira. Que estpido era nessa poca, pensou. Bom, possivelmente aquela cruz adornada teria dado-lhe sorte. Escovou os dentes cuidadosamente. Agora era seu prprio dentista. Muitas coisas podiam ir-se ao diabo, mas sua sade era muito importante. Por que no deixo tambm o lcool?, pensou. Por que no acabo com aquele inferno? Antes de ir-se cama percorreu a casa, apagando as luzes. Contemplou o mural durante uns minutos e tratou de pensar que era realmente o oceano. Mas como poderia concentrar-se com todos aqueles chiados e gritos noturnos? Apagou a luz da sala e entrou no dormitrio. Uma careta de desgosto se desenhou em sua cara. A serragem cobria os lenis. Sacudiu-os com a mo pensando que devia separar o armazm do dormitrio. Seria melhor fazer isto, seria melhor fazer aquilo, pensou cansado. Teria tanto que fazer. Nunca resolveria o verdadeiro problema.
  • 6. Colocou os tampes nos ouvidos e se afundou no silncio. Apagou a luz e deslizou-se entre os lenis. Eram um pouco mais das dez. Que mais d pra fazer?, pensou, me levantarei mais cedo. Estendido na cama, respirou profundamente na escurido, esperando que lhe viesse o sono. Mas o silncio no era uma grande ajuda. Ainda os tinha gravados; homens de caras brancas que se arrastavam pela rua, procurando incessantemente como chegar at ele. Alguns, possivelmente de ccoras, espreitando como ces, chiavam os dentes e se balanavam para frente e para trs, para frente e para trs. E as mulheres... Mas ia pensar outra vez nelas? Deitou-se de barriga para baixo proferindo uma maldio e apertou a cabea contra o travesseiro. Assim ficou durante um momento, respirando pesadamente, retorcendo-se. Todas as noites pronunciava mentalmente o mesmo desejo: Que chegue a manh. Deus, faz que chegue a manh! Sonhou com Virginia e gritou durante o sono e os dedos lhe cravaram na colcha como garras. Captulo 2 O despertador soou s cinco e meia. Neville estirou o brao intumescido e o parou. Procurou os cigarros, acendeu um, e se sentou fumar na cama. Ao cabo de um momento levantou-se, cruzou a sala e espionou pelo buraco. L fora, na grama, as obscuras figuras se erguiam como guardies. Enquanto olhava, algumas comearam a afastar-se, e se ouviam murmrios de descontentamento. Outra noite chegava ao seu fim. Voltou para dormitrio, acendeu a luz e comeou a vestir-se. Enquanto colocava a camisa ouviu o grito de Ben Cortman: Saia, Neville! E isso foi tudo. Em seguida se afastariam, mais fracos do que antes. Possivelmente tinham-se atacado entre eles, o que ocorria freqentemente. Nada os unia. Obedeciam a s uma necessidade. Uma vez vestido, Neville se sentou na cama e escreveu a lista dos recados do dia: Torno no Sears. gua. Gerador. Madeira. (?). Rotina. Terminou rapidamente o caf da manh: um copo de suco de laranja, uma torrada e duas xcaras de caf. No podia acostumar-se a comer com tranqilidade. Jogou o copo e o prato de papel no balde de lixo e escovou os dentes. Conservava esse hbito, e isso lhe consolou. Quando chegou porta, elevou os olhos. O cu estava claro, quase sem nuvens. Hoje podia sair. Fantstico. No cho do alpendre tropeou com alguns pedaos do espelho. Bom, continuavam quebrando-os. Limparia-os logo. Havia um corpo sem vida na calada e outro entre as runas da casa vizinha. Ambas eram mulheres. Eram quase sempre mulheres as vtimas. Abriu a porta da garagem e tirou de marcha-r sua caminhonete Willys. Descem em seguida e abriu a porta traseira. Colocou umas luvas grossas e se aproximou da mulher da calada. Enquanto arrastava os corpos pela grama e os colocava em uma lona, pensou que luz do dia, no eram absolutamente atrativas. No tinha nenhuma gota de sangue nelas; tinham a cor de peixes. Fechou o porta-malas.
  • 7. Percorreu o jardim recolhendo em um saco todos os tijolos e pedras que lhe tinham jogado. Levou-o ao carro e tirou as luvas. Em seguida entrou novamente na casa, lavou as mos e preparou umas bolachas e uma garrafa trmica de caf quente. Entrou no dormitrio e recolheu o feixe de estacas. O carregou ao ombro, pegou um martelo da parede e tornou a sair. Essa manh no trataria de encontrar Ben Cortman. Teria outras coisas que fazer. Durante um instante recordou sua inteno de isolar a casa. Bom, ao diabo com isso. Faria-o outro dia, possivelmente algum dia que estivesse nublado. Meteu-se na caminhonete e releu sua lista. O torno era imprescindvel. Mas antes devia livrar-se dos corpos. Ps o motor em marcha e retrocedeu rapidamente para a Boulevard Compton. Dali se dirigiu ao leste. As casas se elevavam a ambos os lados da rua, silenciosas e vazias; os carros estavam estacionados ao longo das caladas. Baixou a vista um momento e examinou o indicador de combustvel. Ainda tinha meio tanque, mas seria bom parar na avenida Western e ench-lo. No momento, no teria motivo para utilizar a gasolina armazenada na garagem. Entrou no silencioso posto de gasolina. Aproximou uma lata e com a mangueira, comeou a encher o tanque at que este transbordou e o lquido se esparramou pelo cimento. Revisou o leo, a gua, a bateria e os pneus. Tudo estava em ordem. Assim sucedia quase sempre, porque cuidava muito do carro. Se lhe danificasse alguma vez e no pudesse retornar antes do crepsculo... Bom, no teria motivo para preocupar-se. Se isso ocorresse, seria o fim. Continuou pela Boulevard Compton at deixar para atrs o posto de gasolina e as outras ruas mortas. No se via ningum. Mas Neville sabia onde estavam. O fogo ainda ardia. Quando chegou mais perto colocou as luvas, a mscara de gs e ficou olhando a escura coluna de fumaa que oscilava sobre a terra. Todo o campo, desde junho de 1975, era um grande poo. Parou o carro e desceu rapidamente em um salto, ansioso por terminar o quanto antes. Abriu a porta traseira, tirou um dos corpos e o arrastou at a borda do poo. Ali levantou-o e lhe deu um empurro. O corpo caiu rodando at o fundo cinzento e fumegante. Retornou caminhonete ofegando, apesar da mscara de gs. Empurrou o outro corpo ao poo e jogou o saco de tijolos e pedras, e se afastou dali a toda pressa. Quando estava afastado um quilmetro, tirou a mscara e as luvas e as jogou atrs. Abriu a janela e ficou a respirar a baforadas o ar frio. Tirou um frasco do porta-luvas e tomou um comprido gole de usque. Em seguida acendeu um cigarro e aspirou profundamente a fumaa. Ocasionalmente, devia ir todos os dias ao poo, durante vrias semanas, e sempre se sentia doente. Em algum lugar, l em baixo, estava Kathy. caminho de Inglewood parou em um mercado em busca de gua mineral. Quando entrou no silencioso armazm sentiu de repente o ftido aroma dos mantimentos putrefatos. Empurrou rapidamente o carrinho ao longo das silenciosas e poeirentas prateleiras. Por fim encontrou as garrafas de gua. No fundo, uma porta se abria a uns poucos degraus. Colocou as garrafas no carrinho e subiu. O proprietrio do mercado deveria estar no andar de acima. Eram dois. No vestbulo, recostada em um sof, havia uma mulher de uns trinta anos, vestida em um roupo vermelho. Respirava lentamente, tinha os olhos fechados e as mos cruzadas sobre o estmago.
  • 8. Neville procurou o martelo e a estaca. Sempre era difcil cravar-lhe quando estavam vivos, especialmente s mulheres. De novo sentiu aquela urgncia insensata que lhe endurecia os msculos. A mulher no proferiu som algum, exceto um rouco grunhido. Enquanto entrava no quarto, Neville ouviu algo similar a um rudo de gua. Bom, o que outra coisa podia fazer?, perguntou-se. No sabia ainda que tinha se equivocado. Parou na entrada da casa, olhando fixamente a cama, com o peito agitado e respirando com dificuldade. Logo, obedecendo a um impulso, aproximou-se e olhou a a menina. Por que todas recordavam Kathy?, pensou, tirando a segunda estaca com mos trmulas. Seguiu seu caminho, e enquanto se aproximava lentamente da Sears tratou de esquecer, pensando no efeito das estacas. Cruzou, preocupado, a deserta avenida. S se ouvia o apagado grunhido de seu motor. Parecia incrvel que agora, depois de cinco meses, comeasse a preocupar-se. E como sabia que sempre acertava no corao? Tinha que ser no corao, teria dito o doutor Busch. Entretanto, ele, Neville, no tinha conhecimentos de anatomia. Franziu o cenho. Era irritante ter atuado em todo esse odioso processo sem ter certeza uma s vez. Sacudiu a cabea. Devo pensar atentamente em tudo isto, ordenar as perguntas antes de me responder. Tenho que fazer as coisas de um modo cientfico. Sim, sim, sim, pensou, sombras do velho Fritz. Neville estava em desacordo com seu pai, e havia lutado contra seu pensamento mecnico e lgico. O velho Fritz tinha morrido, negando violentamente a existncia dos vampiros, at o ltimo instante. Encontrou o torno na Sears. Carregou-o na caminhonete e em seguida rastreou o edifcio. Viu cinco no poro, escondidos em lugares escuros, e achou um em uma geladeira. Quando viu o homem metido ali, nesse atade de porcelana, no pde conter a risada. Mais tarde se deu conta de que s um mundo sem humor justificava essa risada. Por volta das duas, parou e almoou. Tudo parecia ter sabor a alho. Era surpreendente o efeito do alho. O aroma devia afast-los, mas por que? Havia muitos pontos obscuros: que no sassem de dia, que no suportassem o alho, que os matassem definitivamente com as estacas, que temessem as cruzes e que evitassem os espelhos. Segundo a lenda, eram invisveis nos espelhos ou se transformavam em morcegos. Mas a cincia e a realidade tinham conseguido vencer aquelas supersties. Do mesmo modo, era disparatado acreditar que se transformavam em lobos. Sem dvida alguma, existiam ces vampiros; os havia visto e ouvido fora da casa, de noite. Mas s eram ces. Neville apertou os lbios. Esquece-os, disse-se a si mesmo; no est preparado ainda. Algum dia poder entender tudo isto, mas agora no. H questes mais urgentes resolver. Depois do almoo, foi de casa em casa e utilizou todas as estacas.Quarenta e sete.
  • 9. Captulo 3 A fora do vampiro reside em que ningum acredita nele. Obrigado, doutor Van Helsing, pensou Neville deixando a um lado seu exemplar de Drcula. Ficou com os olhos fixos na biblioteca, escutando o segundo concerto para piano de Brahms, com um copo de usque na mo direita e um cigarro na esquerda. Em efeito. O livro era um compndio de supersties e convencionalismos simples mas essa linha dizia a verdade. Ningum havia acreditado neles, e como se podia lutar contra algo inverossmil? Assim havia sido. Algo obscuro e noturno havia se cruzado nas sombras medievais. Algo impossvel e inconsistente, algo que s existia em feitos e idias, nas pginas da literatura fantstica. Os vampiros pertenciam outra poca, como os romances de Summers ou os melodramas de Stoker. Eram apenas umas linhas na Enciclopdia Britnica ou possivelmente material para escritores ou filmes de mdia qualidade. Uma dbil lenda que havia se transmitido de sculos em sculos. Bom, pois agora tinha certeza. Tomou um gole de usque e fechou os olhos, deixando descer o lquido gelado pela garganta at esquentar-lhe o estmago. Era certo, pensou, mas ningum tinha conseguido averigu-lo. Oh, sabiam que existia algo, mas de maneira nenhuma podia ser isso. Isso era algo imaginrio, uma mera superstio, no havia nada semelhante na vida real. E antes de que a cincia tivesse destrudo a lenda, a lenda devoraria a cincia e todo o resto. Esse dia no havia procurado madeira. No tinha revisado o gerador. No havia recolhido os pedaos de espelho quebrados. Nem sequer tinha jantado; no tinha apetite. Acontecia freqentemente. No podia fazer aquilo e comer logo despreocupadamente. Nem ainda depois de cinco meses. Pensou nos meninos que havia visto aquela tarde e tomou sua bebida. Piscou e as paredes da casa danaram um pouco diante dele. Est embebedando-se homem, disse a si mesmo. E o que importa?, replicou. Tinha algum, mais direito? Lanou o livro ao outro extremo do quarto. Adeus, Van Helsing, Mina, Jonathan, e voc, Conde de olhos sanguinolentos. Fices, extrapolaes estpidas de um tema sombrio. Tossiu engasgando-se. L fora, Ben Cortman o convidava a sair uma noite mais. Espera a, Benny, no v, pensou. Espera que eu ponho o smoking. Espera, Benny... Bom, por que no?, perguntava-se. Por que no sair agora? S assim poderia livrar-se definitivamente deles. Convertendo-se em um deles. Riu entre dentes. Era muito simples. levantou-se e se aproximou cambaleando-se ao bar. Por que no? Por que sofrer tanto, quando que com apenas o abrir uma porta e descer uns degraus se solucionaria tudo em seguida? Havia, obvio, uma nfima possibilidade de que existissem outros como ele em alguma parte, tentando sobreviver, esperando poder encontrar algum dia a gente de sua espcie. Mas como podia encontr-los, se viviam a mais de um dia de viagem? Encolhendo-se de ombros, encheu de novo o copo com usque. Qual era sua atividade, fazia meses, desde ento? Pr colares de alho nas janelas, colocar redes na estufa, queimar os corpos, tirar as pedras e, pouco a pouco, ir reduzindo aquela multido. Por que enganar-se a si mesmo? Nunca havia encontrado a ningum mais. Deixou-se cair pesadamente no sof. Aqui estou, acomodadssimo, acossado por um regimento de sedentos de sangue que s aspiram a beber livremente o meu. Tomem um gole, cavalheiros, este realmente por minha conta. Uma careta de dio apareceu em seu rosto. Bastardos! Matarei-os a todos antes de ceder! Apertou com fora a mo direita e o copo quebrou-se em pedaos.
  • 10. Baixou os olhos e olhou aturdidamente os vidros no cho, o resto ainda seguia em sua mo, e o sangue diludo em usque gotejava lentamente. Gostariam de v-la?, perguntou-se. Levantou-se, furioso, de um salto, e quase abriu a porta. Seria bom lhes esfregar a cara com a mo e ouvi-los uivar. Fechou em seguida os olhos, sacudindo-se. Se controle, amigo, pensou. Vai enfaixar essa mo condenada. Entrou no banheiro dando uns tropees e lavou cuidadosamente a mo, estremecendo- se quando a tintura de iodo entrava na ferida. Enfaixou-se em seguida torpemente. Respirava com dificuldade e o suor lhe banhava a testa. Desejava um cigarro. Voltou para a sala, trocou Brahms por Bernstein e acendeu um cigarro. O que farei se um dia me faltam os pregos para os atades?, perguntou-se observando a lenta coluna de fumaa azul. Bom, seria difcil que isso ocorresse. Tinha mil caixas no armrio da Kathy... Na despensa, corrigiu-se, a despensa, a despensa. O quarto da Kathy... Olhou com olhos apagados o mural enquanto a idade da ansiedade lhe invadia os ouvidos. Idade da ansiedade, meditou. Acreditava-se ansioso, Lenny. Lenny e Benny, vocs dois deviam se conhecer. Compositor, apresento-lhe ao cadver!. Mame, quando for maior, quero ser um vampiro como papai!. Oh, meu querido, quot;Deusquot; te abenoe, claro que chegar a s-lo! O usque derramou-se do copo. Fez uma careta de dor e trocou de mo a garrafa. Sentou-se e bebeu. Apuremos o gasto fio da sobriedade, pensou. Arrastemos a esmiuada viso da realidade o quanto antes. O dio. O quarto comeou a girar sobre si mesmo e o cho se ondulou sob a cadeira. Uma agradvel neblina cobriu todas as coisas. Neville olhou o copo, os discos. Repousou a cabea, primeiro a um lado e depois ao outro. L fora eles rondavam, rosnavam e esperavam que sasse. Pobres vampiros, pensou, pobres criaturas, to abandonadas, passeando-se frente a minha casa como gatinhos sedentos. Teve uma idia. Ergueu o indicador, que aparecia tremer diante de seus olhos. Amigos, me aproximarei de vs para discutir sobre os vampiros. Um representante da minoria sempre o houve. Mas vou esboar concretamente as bases de minha tese: os vampiros so vtimas de um preconceito. A explicao do dito preconceito esta: Os despreza porque os teme; portanto... Neville seguiu bebendo. Uma vez, nas noites da Idade Mdia, os vampiros tinham sido muito poderosos e enormemente temidos. Os considerava um antema, e ainda o eram. A sociedade os perseguia sem descanso. Mas so suas necessidades mais detestveis que as de outros animais e inclusive as de alguns homens? Realmente, reflita, to mau o vampiro? Afinal de contas, s bebem sangue. Por que ento esse profundo dio, essa condenao eterna? Por que o vampiro no era livre de escolher sua moradia? Por que devia estar sempre oculto? Por que extermin-los? Ah, lhe d conta? O desamparado inocente terminar convertendo-se em um animal aoitado. O vampiro carece de meios prprios para subsistir, no pode educar-se. Negam-lhe o direito de voto. No estranho que levam uma existncia noturna e depredadora. Neville deixou escapar um grunhido. Claro, com certeza, mas no permitiria que minha irm se casasse com um deles. Era um beco sem sada, pensou, encolhendo-se de ombros.
  • 11. A msica cessou. A agulha seguiu patinando sobre os sulcos negros. Neville sentiu que um frio lhe subia pelas pernas. Isso lhe acontecia quando bebia muito. A gente deixa de saborear as delcias da bebida. J no h consolo no lcool. O desmoronamento se adianta sorte. O quarto estava voltando para seu lugar original. Os sons da rua aturdiam-lhe de novo. Saia, Neville! Fez-lhe um n na garganta e exalou um rouco suspiro. Saia. As mulheres esperavam ali, com os vestidos abertos ou nuas. Sua pele espera meu toque, seus lbios esperam... meu sangue, meu sangue! Como se no tratasse de sua prpria mo, Neville olhou o punho plido que se elevava lenta e trmulamente, para cair logo sobre sua perna. A dor lhe fez aspirar o ar rarefeito. Por toda parte se cheirava a alho. Na roupa, nos mveis e na comida, e at no usque. Sirva-me um pouco de alho com soda, por favor! A piada morreu rapidamente. Levantou-se e comeou a andar. O que farei agora? Cairei na rotina de todas as noites? Ler, beber, pensar em isolar a casa, pensar nas mulheres. As mulheres, nuas, ofegantes e sedentas de sangue, desdobravam diante dele os corpos quentes. No, no eram quentes. Um gemido trmulo lhe subiu pelo peito e pela garganta. O que esperavam aqueles malditos? Supunham que ia sucumbir e entregar-me? Possivelmente estavam certos. J estava levantando a tranca da porta. Moas, umedeam seus lbios que vou agora mesmo. L fora, ouviram o rudo da tranca e um alarido de antecipao encheu a noite. Neville girou sobre si mesmo, retrocedeu e golpeou com os punhos a parede com tal fora que afundou o gesso e machucou a pele. Depois de um momento conseguiu recuperar a calma. Colocou a tranca na porta e se dirigiu ao dormitrio. Deixou-se cair na cama, de costas, gemendo. A mo esquerda golpeou uma vez, fracamente, o travesseiro da cama. Meu deus!, pensou. At quando, at quando? Captulo 4 Neville no pensou em pr o despertador e o alarme no soou aquela manh. Dormiu toda a noite com a perna solta, o corpo imvel, como que forjado em ferro. Quando por fim abriu os olhos. Eram dez horas. Mexeu-se com um murmrio de desgosto, tirando as pernas para fora da cama. Pulsavam-lhe as tmporas como se o crebro quisesse sair do crnio. Fantstico, pensou, isto da bebedeira de ontem noite. No necessitava mais averiguaes. Levantou, e queixando-se, foi se arrastando at o banheiro, encharcou a cara e a cabea em gua bem fria. No suficiente, protestou, no. Sinto-me realmente mal. O homem que se refletia no espelho era fraco, barbudo, e aparentava mais de quarenta anos. Amor, seu mgico encanto alcana a todos os homens. Estas palavras ininteligveis lhe golpearam no crebro como lenis molhados no vento. Cruzou lentamente o vestbulo e desobstruiu a porta da rua. Uma maldio saiu de seus lbios quando viu outra mulher estendida na calada. Sentiu que a raiva lhe invadia o corpo, mas isso aumentou os batimentos do corao no crnio e se controlou. Estou doente, pensou. O cu era de um cinza plmbeo. Bem!, disse. Outro dia encerrado nesta covinha! Deu uma portada com raiva, mas em seguida se arrependeu, gemendo. O som do golpe havia entrado em seu crebro. L fora ouviu cair os ltimos restos do espelho. Apertou os lbios fazendo uma dbil careta.
  • 12. As duas xcaras de caf s pioraram as coisas ainda mais. Deixou a xcara e retornou ao vestbulo. Ao diabo contudo, pensou. Voltarei a me embebedar. Mas o lcool lhe tinha sabor de terebintina. Visivelmente contrariado, jogou o copo contra a parede e ficou contemplando como o lquido molhava o tapete. Demnios, vou ficar sem copos. A idia o enfureceu. Afundou-se no sof e ficou ali sacudindo a cabea com ingenuidade. Era intil; sentia-se vencido. Os escuros bastardos o tinham vencido. De novo lhe atacava aquela inquietante sensao. Sentia como se seu corpo se expandisse e que a casa se contraa sobre ele, e que em qualquer momento a armao voaria em pedaos; madeiras, gesso e tijolos. Levantou-se e se dirigiu rapidamente para a porta. Parou na grama, respirando profundamente o ar mido, de costas para casa. Mas as outras casas no eram menos desagradveis, e tambm as odiava, assim como o pavimento e as caladas e os jardins e toda a rua. E de repente se deu conta de que devia sair dali. Estivesse nublado ou no, devia sair imediatamente. Fechou a porta da rua, tirou o cadeado da garagem e ergueu a pesada porta. No se entreteve em baix-la. Voltarei logo, pensou. Ser s um momento. Tirou rapidamente a caminhonete dando marcha-r at a rua. Deu volta e apertou o acelerador, entrando na Boulevard Compton. No tinha rumo algum. Dobrou a esquina a uns sessenta quilmetros por hora e antes de cruzar a prxima travessa j corria a mais de noventa. O carro saltava para frente. A perna tensa de Neville apertava o acelerador no fundo. As mos eram de gelo no volante. Pelo Boulevard vazio e morto alcanou os cento e vinte quilmetros por hora: um impressionante rugido quebrava aquela opressiva quietude. O mato do cemitrio havia crescido to rpido que j se dobrava sobre si mesmo, estalando sob os pesados sapatos de Neville. No se ouvia mais som alm dos seus passos e o desafortunado canto dos pssaros. Em um tempo acreditei que cantavam porque tudo estava bem no mundo, refletiu Neville. Equivoquei-me. Cantam porque so dbeis mentais. Tinha percorrido dez quilmetros antes de descobrir aonde se dirigia. Era estranho como se havia escondido. Em princpio s estava doente e deprimido e precisava sair da casa. No se havia dado conta de que ia visitar Virginia. Mas tinha vindo diretamente e a toda velocidade. Havia parado a caminhonete junto calada, cruzando a p a enferrujada porta, e agora caminhava entre aquele mato crescido. Quando havia sido a ltima visita? Fazia um ms pelo menos. Poderia ter trazido algumas flores, mas at chegar grade no compreendeu o que estava fazendo. Apertou os lbios ao sentir de novo a persistente dor. Por que Kathy no estava descansando tambm ali? Como teria se deixado dominar por aqueles estpidos, seguindo suas regras? Se pelo menos estivesse ali junto a sua me... Tenso, aproximou-se da cripta. A porta de ferro estava entreaberta. Oh, no tero se atrevido, pensou. Ps-se a correr entre o mato mido. Se a houverem tocado queimarei a cidade, anunciou. Juro-o, queimarei a cidade at seus alicerces. Abriu bruscamente a porta e o ferro golpeou com um som oco e ressonante a parede de mrmore. Deu uma rpida olhada na lpide e no atade. Tranqilizou-se, suspirando com alvio. Ainda seguia intacta. Em seguida viu o homem. Estava jogado em um canto da cripta, com o corpo dobrado sobre o cho. Furioso, Neville correu para o corpo, e agarrando-o pela camisa, sacudiu-o, arrastou-o pelo cho e o jogou violentamente fora da cripta. O corpo rodou sobre si mesmo, ficando de cara ao cu. Neville voltou para a cripta, ofegante. Com os olhos fechados, colocou as mos sobre o atade.
  • 13. Estou aqui, pensou. Voltei. Recordei-me. Atirou as flores que havia trazido na ltima visita e tirou as folhas que o vento teria arrastado at a cripta. Em seguida se sentou junto ao atade e apoiou a testa no frio metal. Era como sentir a carcia das suaves mos do silncio. Poderia morrer agora, pensou, assim, docemente, sem prantos nem tremores. Se pudesse estar com ela... Se tivesse a certeza de que estaria com ela... Fechou lentamente as mos e deixou cair a cabea. Virginia. Leve-me contigo. Uma lgrima cristalina se deslizou sobre suas mos imveis. No sabia quanto tempo havia transcorrido desde que chegou ali. Ao fim, pensou, at a dor mais profunda se abranda, o desespero mais intenso cede. A maldio do carrasco: o prisioneiro se acostuma sua pena. Colocou-se de p. Ainda vivo, refletiu; meu corao pulsa insensatamente; o sangue corre por inrcia; ossos e msculos funcionam sem motivo. Deu um ltimo olhar tampa do atade, e ao fim se voltou com um suspiro e deixou a cripta fechando a porta silenciosamente. Havia esquecido ao homem e quase tropeou nele. desviou-se murmurando uma maldio e afastou-se do corpo. De repente, virou-o com brutalidade. Como podia ser? Olhou, incrdulo, o corpo do homem. Estava morto, realmente morto. A mudana tinha sido imediata, parecia como se levasse vrios dias morto. Sentiu-se subitamente excitado. Algo havia matado ao vampiro, algo brutalmente eficaz. Nem estacas, nem alhos, e entretanto... De repente compreendeu. Claro, a luz do dia! Durante cinco meses tinha visto que no saam durante o dia, mas no se lhe havia ocorrido perguntar o porqu! Fechou os olhos assombrado de sua prpria estupidez. Tinham que ser os raios do sol; os raios infravermelhos e ultravioletas. Mas por que? Nada sabia sobre os efeitos da luz solar no corpo humano. E, alm disso, aquele homem havia sido realmente um vampiro, um cadver vivente. Teria a luz o mesmo efeito sobre os que ainda estavam vivos? Pela primeira vez em meses se sentia excitado. Correu caminhonete. Quando esteve no interior do veculo pensou se no seria melhor levar o cadver. Quem sabe atrairia os outros, que poderiam invadir a cripta? No, no se atreveriam a aproximar-se do atade; estava selado com alho. Alm disso, o sangue do homem agora estava morto... Com certeza, os raios do sol modificavam de algum modo o sangue dos vampiros! Era possvel, ento, que tudo guardasse relao com o sangue? O alho, as cruzes, o espelho, a estaca, a luz do dia, e inclusive a terra em que alguns dormiam? No compreendia a razo, e entretanto... Teria muito por ler, muito por investigar. Havia pensado nisso algum tempo, mas ultimamente no havia se dedicado a isso. Agora esta idia lhe dava novas foras. Colocou em marcha o carro e se dirigiu rua acima, entrando em um bairro de residncias, e parou diante da casa mais prxima. Dirigiu-se at a porta, mas a encontrou fechada com chave. Com um sussurro de impacincia tentou o mesmo na casa vizinha. A porta estava aberta aqui e Neville cruzou o vestbulo a toda pressa e subiu atapetados degraus de dois em dois. Encontrou mulher no dormitrio. Sem vacilar, agarrou-a pelos pulsos. O corpo golpeou contra o cho e ouviu-se um fraco gemido. Neville a arrastou escada abaixo. Quando atravessavam o vestbulo, a mulher comeou a mover-se. Suas mos apertaram os pulsos de Neville e o corpo se retorceu sobre o tapete. No abriu os olhos, mas ofegava e rosnava tentando liberar-se.
  • 14. De repente cravou suas unhas escuras na carne de Neville, que se afastou e proferindo uma maldio a agarrou pelos cabelos. Habitualmente, tivesse-lhe parecido quase intolervel fazer estas coisas; aquelas pessoas tinham sido como ele. Mas agora se sentia animado por um novo ardor, o ardor experimental. Ainda assim, quando chegaram rua se estremeceu ao ouvir o entrecortado grito de horror da mulher. Apoiou-a na calada. A mulher agitava as mos; estirava os lbios manchados de vermelho. Neville a olhava tensamente. Sentiu que algo lhe sufocava. Bom, sofre, verdade; mas um vampiro e se pudesse, me mataria com prazer. Terei que ver deste modo, o nico modo. Mordendo os lbios ficou ali, at que a viu morrer. A mulher deixou de agitar-se, deixou de rosnar, e suas mos foram abrindo-se lentamente como casulos brancos sobre o cimento. Neville escutou-lhe o corao. No pulsava. A carne comeava a esfriar-se. Esboou um dbil sorriso, subiu no carro e se afastou dali. Depois de tanto tempo, descobria um mtodo mais eficaz. No necessitaria mais estacas. De repente, lhe cortou o flego. Como podia saber se a mulher estava morta? Como podia averigu-lo antes do crepsculo? A raiva o dominava de novo, uma raiva impaciente. Todas as perguntas pareciam anular as possveis respostas. Parou a caminhonete em um supermercado e se sentou para beber um suco de tomate. Como iria saber? No podia ficar com a mulher at que anoitecesse. Podia lev-la a sua casa. Estava irritado consigo mesmo. Hoje no conseguiria acertar uma resposta. Agora tinha que retroceder o caminho e encontrar o cadver, e no se lembrava onde estava a casa exatamente. Ligou o motor jogando um olhar ao seu relgio. Trs horas. Tinha tempo. Pisou no acelerador e a caminhonete comeou a correr. Demorou meia hora aproximadamente para encontrar a casa. A mulher continuava na calada, tal como a havia deixado. Neville colocou as luvas, abriu as portas da caminhonete, aproximou-se da mulher e meteu-a na caixa. Depois tirou as luvas. Levantou o pulso. Olhou o relgio. S eram trs horas. Tinha tempo... Trs! Sacudiu o relgio e o aproximou do ouvido, com o corao nas mos. O relgio tinha parado. Captulo 5 Neville girou a chave de ignio com dedos trmulos. As mos apertavam rigidamente o volante, e dando meia volta, apontou para o jardim. Que estpido havia sido! Pelo menos teria demorado uma hora para chegar ao cemitrio. Tinha permanecido na cripta durante horas. Logo, a viagem em busca daquela mulher, e a viagem ao supermercado, e depois de novo em busca da mulher. Quanto tempo havia passado? Idiota! Sentiu gelar as veias ao imagin-los lhe esperando diante da casa. Oh, Meu Deus, e a porta da garagem tinha ficado aberta! A gasolina, os equipamentos, o gerador! Com um gemido entrecortado pisou fundo no acelerador e a caminhonete ps-se a correr. O ponteiro do velocmetro oscilou, e saltou dos noventa at os cem, e em seguida at os cento e vinte. O que ocorreria se j estavam esperando-o? Como poderia entrar em casa?
  • 15. Tratou de acalmar-se. No podia se desesperar agora. Tinha que entrar. No h por que preocupar-se, entrar, disse a si mesmo. Mas no lhe ocorria o mtodo para isso. Passou a mo nervosamente pelo cabelo. Fantstico, fantstico, pensou. Passar por tudo isto para seguir vivo, e no dia pior planejado, no volta a tempo. Merecia qualquer castigo por ter esquecido dar corda no relgio. E eles se encarregariam gostosamente de castig-lo. As silenciosas ruas desfilavam rapidamente. Neville olhava de vez em quando as portas das casas. Comeava a escurecer aparentemente, mas sem dvida era sua imaginao. No podia ser to tarde. Acabava de passar a esquina da Western e Compton quando um homem saiu correndo de um edifcio e gritou. A Neville lhe gelou o sangue. O grito do homem ficou ressonando no ar. No podia ir mais depressa. Em qualquer momento arrebentariam os pneus, ou se romperia o eixo da direo, e o carro iria estatelar-se contra qualquer casa. Tremiam-lhe os lbios. Fechou a boca com fora. As mos lhe intumesciam no volante. Teve que reduzir a velocidade ao chegar esquina da rua Silvestre. Pelo retrovisor, viu um homem que saa de uma casa e corria atrs dele. Os pneus chiaram ao dobrar a esquina. Neville afogou um grito. Estavam todos lhe esperando em frente casa. Sentiu um n de terror na garganta. No queria morrer. Podia hav-lo imaginado. Mas no queria morrer. Pelo menos, no deste modo. Tinham ouvido o rugir do motor e as caras brancas foram se voltando para ele. Alguns saram correndo da garagem. Neville apertou com fria as mandbulas. Que forma to estpida de morrer! Vinham ao seu encontro, cruzando a rua. Neville compreendeu de repente, que no podia parar. Apertou o acelerador, e um instante depois a caminhonete ia-os atropelando, derrubando-os como se fossem pinos de boliche. Sentiu tremer o chassi com o impacto. Os rostos brancos passaram diante da janela com gritos dilaceradores. Deixou-os atrs, e viu pelo espelho retrovisor como corriam, perseguindo-o. Teve uma idia. De repente, diminuiu a velocidade at quarenta e em seguida trinta quilmetros por hora. Virou a cabea. As caras de um branco cinzento estavam cada vez mais perto, com os olhos cravados no carro e nele. De repente, girou-se sobressaltado. Algum havia grunhido muito perto. Olhou pela janela e viu o rosto enlouquecido de Ben Cortman junto ao carro. Apertou rapidamente o pedal do acelerador, mas o outro p escorregou sobre a embreagem. A caminhonete morreu. Um suor frio lhe banhou a testa. Inclinou-se sobre a chave de ignio. A mo de Ben Cortman lhe cravou no ombro. Neville proferiu uma maldio e afastou aquela mo branca. Neville! Neville! Ben Cortman o alcanou de novo, com suas frias garras de gelo. Neville conseguiu livrar-se outra vez e seguiu girando a chave. Atrs se ouviam os gritos excitados dos que se aproximavam. Por fim, o motor arrancou no instante em que as unhas de Ben Cortman se cravavam na bochecha de Neville. Neville! A dor lhe fez fechar a mo, e o punho rgido se dirigiu para o rosto de Cortman. Cortman caiu de costas contra o cho e o carro se afastou rapidamente. Outro tinha subido na parte traseira da caminhonete. Durante uns instantes Neville viu o rosto cinzento, apertado contra a janela. Dirigiu-se para a esquina e virou bruscamente; o homem foi jogado para fora e se colocou a correr tropeando pela grama, com os braos levantados, indo chocar-se violentamente na frente de uma casa.
  • 16. Neville se sentia intumescido e frio. O corao lhe saltava no peito. O sangue lhe descia pela bochecha. Passou sua mo trmula pelo rosto. Virou na esquina, direita. Foi at a rua Haas e dobrou de novo direita. O que aconteceria se cruzavam os terrenos baldios e bloqueavam a rua? Viu-os lhe seguir, como uma manada de lobos, e reduziu um pouco a velocidade, para voltar a acelerar imediatamente. Contava com que todos lhe seguissem. Suspeitariam o que tramava? A caminhonete alcanou rapidamente a outra esquina. Neville virou a oitenta por hora, chegou rua Silvestre e dobrou outra vez direita. Aproximou-se da calada e abriu a porta. Enquanto descia do carro, alguns gritos aproximavam-se pela esquina. Tentaria fechar a garagem. Do contrrio, podiam destruir o gerador; no tinham tido tempo ainda. Correu pela calada. Neville! Deteve-se bruscamente. Cortman saiu dentre as sombras da garagem e se chocou contra ele, quase derrubando-o. Sentiu suas mos frias e fortes lhe apertando o pescoo e um hlito ftido que lhe banhava o rosto. Neville retrocedeu tropeando para a calada. A boca branca e fungosa lhe buscou a garganta. Neville levantou bruscamente o punho direito e o deixou cair com toda sua fora sobre o peito de Cortman. Ouviu-se um som surdo. Um homem apareceu pela esquina, correndo e gritando. Neville agarrou violentamente Cortman pelos sujos e largos cabelos e o arrastou pela calada at o carro. A cabea de Cortman golpeou o estribo. No tinha tempo para ocupar-se da garagem. Neville subiu rapidamente os degraus do alpendre e parou de repente. Meu Deus, as chaves! Sentiu que lhe faltava o flego. Inspirou e ps-se a correr para o carro. Cortman se aproximou grunhindo afnicamente. Neville lhe golpeou a cara com o joelho, e Cortman caiu de novo contra a calada. As chaves estavam no porta-luvas. Quando Neville saiu da caminhonete, um deles saltou para ele. Retrocedeu apoiando-se no assento, e o homem, tropeando com suas pernas, rodou pesadamente pela calada. Neville deu um salto, cruzou a grama, e alcanou o alpendre. Estacou-se para procurar a chave e outro homem subiu atrs dele. O impacto jogou Neville contra a casa. Outra vez aquele flego ftido e a boca entreaberta sobre seu pescoo. Afundou o joelho no ventre do homem e em seguida, apoiando-se contra a parede, empurrou-o bruscamente com o p. O homem, dobrado sobre si mesmo, caiu em cima do outro que se aproximava pela grama. Neville abriu a porta, entrou, e se voltou para fech-la, quando um brao alcanou-o passando pela abertura. Neville apertou com todas suas foras at ouvir quebrar os ossos. Em seguida abriu, jogou o brao quebrado e fechou com uma portada. Colocou a tranca com mos trmulas. Apoiado na parede, foi escorregando lentamente para o cho e se inclinou de costas. Ficou ali na escurido, com o peito agitado e os braos e as pernas estendidos e insensveis. L fora, ouviam-se gritos furiosos e golpes violentos. Pedras e tijolos choveram sobre a casa. Ao cabo de um momento Neville se dirigiu ao bar. Parte do usque se derramou sobre o tapete. Bebeu apoiando o corpo no mvel, com um n lhe apertando a garganta e os lbios trmulos. Sentiu descer o calor do lquido at o estmago e se sentiu reconfortado. Respirou devagar. L fora se ouviu um estrondo.
  • 17. Neville correu a espionar pelo buraco. Pedras e tijolos quebravam o pra-brisa da caminhonete, derrubada no meio da rua, e alguns homens providos de paus golpeavam o motor com todas suas foras. Neville sentiu fria nas veias, uma corrente como um cido lhe percorreu todo o corpo. De repente se lembrou do gerador e tratou de acender o abajur. No havia luz. Correu at a cozinha. O refrigerador no funcionava. Foi de uma casa a outra. Todos os mantimentos se danificariam. A casa era uma casa morta. Basta! gritou em um mpeto de clera. Revirou as roupas da cmoda com impacincia at que as mos se encontraram com as armas. Cruzou a sala e tirou a tranca da porta deixando-a cair ao cho. Os de fora o ouviram e comearam a uivar. J saio, bastardos!, gritou Neville em sua mente. Abriu a porta repentinamente e disparou contra o primeiro na cara. O homem rodopiou e caiu do alpendre grama, aonde duas mulheres com os vestidos rasgados receberam-no em seus braos. Neville viu como os corpos se retorciam com as balas e ouviu gritos dilaceradores. Disparou at esgotar as balas. Logo, seguiu dali ao alpendre, golpeando-os cegamente com as culatras das armas, e observando aterrorizado como voltavam para ele quo mesmos havia ferido. E quando lhe arrebataram as pistolas, recorreu aos punhos e aos cotovelos, e afastou-os cabeadas e chutes. S quando sentiu aquela intensa dor no ombro se deu conta do que estava fazendo. Afastando de um lado a duas mulheres, chegou at a porta. O brao de um homem lhe rodeou o pescoo. Neville se dobrou para frente jogando o homem por cima de sua cabea. Antes que o alcanassem outra vez, fechou a porta em seguida e trancou. Apoiando-se contra a parede de p na fria escurido da casa, Neville voltou a escutar os gritos dos vampiros. Quase sem foras golpeou o gesso da parede; as lgrimas lhe corriam pelas barbudas bochechas; a mo machucada lhe doa intensamente. Tudo estava perdido, tudo. Virginia soluou como um menino perdido e assustado. Virginia. Virginia. II - Maro de 1976 Captulo 6 A casa, ao fim, era confortvel outra vez. Ainda mais que antes em realidade, pois, depois de trs dias de trabalho tinha conseguido isolar as paredes. Agora podiam gritar e uivar a seu gosto. Era um descanso no ter que ouvir novamente Ben Cortman. Havia-lhe levado tempo e trabalho. Em primeiro lugar teve que procurar uma nova caminhonete. No tinha sido tarefa fcil. Teve que ir at a Santa Mnica. No conhecia outra concessionria Willys, nunca tinha dirigido outras marcas e no era momento para experimentos. Como no podia ir andando at Santa Mnica, procurou outro carro pelos arredores. Mas a maior parte no funcionava, por um motivo ou outro; a bateria descarregada, a bomba de leo rachada, falta de gasolina, pneus murchos. Por fim, a um quilmetro de sua casa, encontrou um carro em bom estado e correu a Santa Mnica em busca de outra caminhonete. Colocou-lhe uma bateria nova, encheu o tanque de gasolina, carregou algumas latas e voltou para a casa. Chegou uma hora antes do anoitecer.
  • 18. Por sorte no tinham quebrado o gerador. Aparentemente, os vampiros no conheciam sua importncia. Neville s havia encontrado um cabo partido e as marcas de algumas pauladas. Arrumou-o em seguida, durante a manh seguinte ao ataque, evitando assim que a comida se danificasse. Alegrou-se realmente, pois agora que faltava eletricidade no bairro, seria impossvel conseguir mantimentos congelados. Depois, havia arrumado a garagem tirando restos de lmpadas, fusveis, cabos, reposies de motor e uma caixa de sementes que tinha guardado ali fazia anos. A mquina de lavar roupa no funcionava e a havia trocado. Mas tudo isto no tinha sido difcil. Em compensao, havia custado tornar a encher as latas de gasolina. Nisto se superaram a si mesmos, pensou com irritao enquanto limpava o combustvel derramado no cho. No interior da casa tinha arrumado o gesso da parede e, como novo estmulo, havia trocado o mural, dando assim uma aparncia distinta sala. Ps entusiasmo em seu trabalho, uma vez comeado. Era algo no que se ocupar, algo no que consumir os restos de raiva. Desse modo quebrava a monotonia das tarefas dirias; o traslado dos cadveres, as reparaes do exterior, os colares de alho. Nesses dias bebia pouco; tratava de no provar o usque durante o dia, e de que os drinques noturnos fossem simplesmente para acompanh-lo nos momentos de descanso e no um suicdio camuflado. Teve mais apetite e aumentou dois quilos. At dormiu profundamente nestas noites, e sem pesadelos. Durante um dia ou dois pensou na idia de mudar-se para um luxuoso apartamento de algum hotel, mas a abandonou ao considerar todo o trabalho que seria necessrio para acondicion-lo. No, j estava bem em sua casa. Agora, sentado no vestbulo, escutava Jpiter, de Mozart, e pensava sobre como e onde comearia sua investigao. Conhecia alguns detalhes, mas eram s pequenos sinais em um terreno desconhecido. Sem dvida alguma, a resposta residia em outra parte. Possivelmente em algum feito familiar, no considerado devidamente e sem relao aparente com o resto. Mas o que? Recostado na cadeira, com um copo na mo direita, observava o mural. Era uma paisagem canadense: bosques profundos, estticos e misteriosos, de sombras verdes, onde reinava o profundo silncio da natureza indomvel. Neville cravou pensativamente seu olhar nas sombras verdes do mural. Aquela noite, fazia tempo, havia desatado uma tormenta de areia. O vento tinha sacudido a casa, penetrando pelas frestas, e at pelos poros do gesso, cobrindo o cho e os mveis com uma fina capa de p que repousava sobre a cama e se metia nos olhos e sob as unhas. Neville havia passado meia noite acordado, tratando de ouvir a pesada respirao de Virginia, mas s lhe chegava o estrondo da tormenta. Durante um momento, suspenso entre o sonho e a viglia, havia chegado a sentir como se rodas gigantescas triturassem a casa e umas terrveis superfcies abrasivas corroessem seu esqueleto. No chegava a acostumar-se s tormentas de areia, no suportava aquele som sibilante dos redemoinhos. Quando comeavam, quase no podia dormir, e ao dia seguinte ia fbrica com um grande cansao no corpo e na mente. E agora, alm disso, a preocupao por Virginia. s quatro da manh despertou e percebeu que a tormenta havia cessado. O som do silncio lhe assobiava nos ouvidos. Enquanto se movia para acomodar o retorcido pijama, deu-se conta de que Virginia estava acordada. Deitada de barriga para cima, olhava o teto baixo. O que houve? perguntou-lhe sonolento. Virginia no respondeu. Querida... A mulher se voltou para ele. Nada disse, dorme.
  • 19. Como voc est? Igual. Ah. Neville a olhou um momento. Bom disse ao fim, e virando-se, tratou de dormir. O despertador soou s seis e meia. Quase sempre Virginia desligava-o, e em algumas ocasies Neville, estirando o brao por cima do corpo imvel de sua mulher. Virginia seguia de barriga para cima, olhando ao teto. O que houve? perguntou Neville preocupado. Virginia o olhou e sacudiu a cabea. No sei disse, no posso dormir. Porqu? A mulher se encolheu de ombros. Sente-se fraca ainda? perguntou Neville. Sua mulher tentou sentar-se e no pde. Trate de no se mover. Neville lhe aproximou uma mo testa. Parece que no tem febre lhe disse. No me encontro mal disse Virginia. S... cansada. Est muito plida. J sei. Pareo um fantasma. No se levante. Virginia havia se levantado. No vou morrer disto disse. Vamos, se vista. No se levante, se no se sente bem, querida. Virginia deu-lhe uma palmada no ombro e sorriu. Passar logo. V se aprontar. Neville estava barbeando-se quando ouviu os passos da Virginia arrastando os chinelos. Abriu a porta e a viu cruzar a sala muito devagar, vestida com um roupo e cambaleando-se ligeiramente. Neville tornou a fechar a porta sacudindo a cabea. No deveria levantar-se. O p tambm cobria a bacia. Tinha p por toda parte. Neville teve que improvisar uma capa sobre a cama da Kathy. A lona estava pendurada da parede, junto ao travesseiro da cama, e duas madeiras a sustentavam no cho. A areia havia impregnado o sabo e Neville no pode barbear-se bem. Mas j era tarde, e no podia perder mais tempo. lavou a cara, pegou uma toalha limpa do armrio do corredor e se secou. Antes de voltar para sua casa, olhou no quarto de Kathy. Dormia ainda. A cabecinha loira descansava relaxada sobre o travesseiro. O sonho havia colorido suas bochechas. Neville passou um dedo pela lona e ficou cinza de p. Sacudiu a cabea aborrecido e saiu do quarto. Se estas condenadas tormentas de areia terminassem de uma vez disse ao entrar na cozinha, uns minutos depois. Me parece que... Calou-se. Habitualmente Virginia estava de p junto cozinha, fritando uns ovos, ou preparando umas torradas, ou fazendo caf. Hoje estava sentada na mesa sem fazer nada. Sobre o fogo fervia o caf, somente. Querida, se voc no se encontrar bem, volte para a cama lhe disse Neville. Eu me ocuparei do caf da manh. No, deixe-me disse Virginia. S estava descansando. Sinto muito. Em seguida lhe prepararei uns ovos. Descanse replicou Neville. No sou um intil. Aproximou-se da geladeira e a abriu. Eu gostaria de saber o que eu tenho disse Virginia. A metade dos vizinhos tem o mesmo e voc diz que na fbrica, a maior parte do pessoal est de licena.
  • 20. Possivelmente se trate de algum vrus. No sei. Entre as tormentas, os mosquitos e as enfermidades, a vida vai tornando-se difcil disse Neville servindo-se suco de laranja de uma garrafa. algo diablico. No suco de laranja havia uma bolinha preta. No entendo como entram no refrigerador comentou Neville. No me sirva , Bob disse Virginia. No quer um pouco? No. Te faria bem. No, obrigado, querido disse a mulher, tratando de sorrir. Neville tornou a garrafa a seu lugar e sentou-se frente a ela com o copo na mo. No lhe di nada? perguntou. A cabea? Ou algo? Virginia negou com um gesto. Se eu soubesse o que tenho... disse. Chame hoje mesmo o doutor Busch. Farei-o disse Virginia erguendo-se. Neville lhe acariciou a mo. No, no, querida, no se mova. Mas no h motivo para estar assim. Parecia zangada. Sempre foi assim Desde que Neville a conheceu. A enfermidade a irritava, de algum modo lhe parecia como um insulto. Vamos Disse Neville levantando. Ajudarei-lhe a voltar para a cama. No, ficarei aqui com voc. Me deitarei quando Kathy sair para a escola. Bom. No precisa de nada? No. Um pouco de caf, talvez? Virginia negou com a cabea. Vai adoecer seriamente se no comer. No tenho apetite. Neville terminou sua laranjada e se voltou para fritar uns ovos. Quebrou as cascas na borda da frigideira, e jogou gemas e claras na manteiga derretida. Tirou logo o po de uma gaveta e voltou para a mesa. Me d. Colocarei-o na torradeira disse Virginia. Termine voc... Oh Deus. O que houve? A mulher sacudiu fracamente uma mo diante do seu rosto. Um mosquito disse com uma careta. Neville se aproximou e esmagou ao mosquito entre as palmas das mos. Mosquitos disse Virginia. Moscas. Moscas de areia. Entramos na era dos insetos disse Neville. Eu no gosto delas continuou Virginia. Trazem pestes. Teremos que pr tambm uma mosquiteira na cama da Kathy. Sim, sim disse Neville voltando para a cozinha e movendo a frigideira para que os ovos no grudassem. J tinha pensado nisso. No acredito que esse inseticida sirva disse Virginia. No? No. Deus, dizem que um dos melhores. Neville colocou os ovos em um prato. Realmente no quer caf? perguntou. No, obrigada. Neville se sentou e sua mulher aproximou-lhe a torrada com manteiga.
  • 21. Espero que no estejamos criando uma raa de super-insetos disse Neville. Lembra-se aqueles gafanhotos gigantes que encontraram no Colorado? Sim. Possivelmente os insetos so... Como os chamam? Mutantes. O que quer dizer? Oh, significa que... mudam. Evoluem saltando fases intermedirias, e chegam a desenvolver-se como nunca o fariam se no fosse por... Silncio. Os bombardeios? perguntou a mulher. Pode ser. Bom, pelo menos provocam as tormentas. E possivelmente outras coisas. Virginia suspirou cansada e sacudiu a cabea. E dizem que ganhamos a guerra disse. Quem ganhou? Os mosquitos ganharam. Neville sorriu fracamente. Parece que tem razo disse. Calaram-se um momento. S se ouvia o garfo de Neville no prato e o da xcara no pires. Levantou-se ontem noite para ver a Kathy? perguntou por fim a mulher. Acabo de v-la agora. Estava dormindo. Bom. Virginia olhou Neville atentamente. Estive pensando, Bob disse. Possivelmente deveramos envi-la ao Leste, para a casa da sua me, at que melhore. Pode ser contagioso. Possivelmente sim disse Neville, duvidando. Mas se for contagioso, na casa da minha me ela no estar melhor. Tem certeza? perguntou Virginia. Parecia preocupada. Neville se encolheu de ombros. No sei, querida. Penso que aqui ela est a salvo. Se as coisas piorarem no bairro, ela deixar de ir escola. Virginia comeou a dizer algo, mas em seguida se deteve. Bom disse. Neville olhou seu relgio. melhor que voc v. Virginia assentiu com a cabea e Neville terminou rapidamente seu desjejum. Estava a ponto de tomar o caf quando Virginia lhe perguntou se tinham o jornal do dia anterior. Est na sala disse Neville. Algo novo? No, o de sempre. Invadiu todo o pas, um pouco em cada lugar. No descobriam ainda de que vrus se trata. Virginia mordeu seu lbio inferior. Ningum sabe nada? Duvido. Se algum soubesse suponho que j diriam. Mas devem ter alguma idia. Todos tm idias, mas... O que dizem? Neville se encolheu de ombros. Fazem todo tipo de comentrios, comeando pela guerra bacteriolgica. Pode ser? Guerra bacteriolgica? Sim. A guerra terminou disse Neville.
  • 22. Bob disse Virginia de repente. Voc acha que deve ir trabalhar? Neville sorriu. Que outra coisa posso fazer? perguntou. Temos que comer. Eu j sei, mas... Neville, estirando-se sobre a mesa, pegou a mo de sua mulher. Estava gelada. Tudo se resolver, querida disse. Mando a Kathy escola? Sim, no se preocupe. Enquanto as escolas estiverem abertas, no h motivo para deix-la em casa. No est doente. Mas os outros meninos... Acredito que o melhor para ela disse Neville. Virginia deixou escapar um som entrecortado. Em seguida disse: Bom, se voc acha... No quer nada antes que eu v? perguntou Neville. Virginia sacudiu a cabea. No saia hoje disse-lhe Neville, e fique deitada. Assim o farei disse ela. Quando a Kathy se for. Neville lhe apertou a mo. L fora soou uma buzina. Neville terminou o caf em um gole e foi ao banheiro escovar os dentes. Em seguida pegou a jaqueta do armrio e a colocou. At mais tarde, querida disse a Virginia beijando-a. Fique tranqila. At mais tarde disse ela. Tome cuidado. Neville cruzou o jardim. Sentiu entre os dentes o p do ar. Podia cheir-lo e dava-lhe coceira no nariz. Bom dia disse quando entrou no carro. Bom dia respondeu Ben Cortman. Captulo 7 Destilado do Allium estivum, gnero de liliceas no que esto compreendidos o alho, o alho-por, a cebola e a cebolinha. de cor plida e aroma penetrante, e contm vrios slfures. Composio: gua, 64,6%; Protenas, 6.8%; Gordura,0.1%; Hidratos de Carbono, 26.3%; Fibras, 0.8%; Cinza, 1.4%. Isso era. Neville ficou olhando o dente de alho, rosado e flexvel, na palma da mo. Durante sete meses havia fabricado vrias centenas de colares e os pendurava fora da casa. Era o momento de descobrir por que afastava os vampiros. Deixou o dente na borda da pia. Alhos-por, cebolas, sementes de cebola. Seriam to efetivos como o alho? Se fosse assim, sentiria-se realmente tolo. Tinha percorrido quilmetros em busca de alhos e em vez disso, por toda parte, s encontrava cebolas. Amassou o dente at conseguir uma massa polpuda e cheirou o fluido acre no fio da lmina. Muito bem, e ento? No havia nada revelador no passado, exceto conversas e apontamentos sobre insetos e vrus. O passado s trazia a dor da lembrana. Cada palavra que recordava era como a ponta de uma faca que se cravava na carne; uma velha ferida que se abria outra vez. Devia aceitar o presente tal como era, deixando a um lado o passado. Mas s o lcool conseguia apagar momentaneamente aquela profunda tristeza. Sacudiu a cabea. Bom, maldita seja, disse a si mesmo, mova-se. Olhou novamente o texto: A gua. Podia ser? No, era ridculo. Todas as coisas tinham gua. Protenas? No era isso. Gordura? No. Hidratos de carbono? To pouco. Fibra? No. Cinzas? No. O que era ento?
  • 23. O aroma e sabor que caracterizam ao alho se devem a um leo essencial que corresponde a 0.2% do peso, e que consiste fundamentalmente em sulfureto de alho e em isoticianato de alho. Possivelmente era esta a resposta. O sulfureto de alho pode obter-se a partir de esquentar leo de mostarda e sulfureto de potssio at uma temperatura de cem graus. Neville recostou-se na poltrona da sala bufando contrariado. E onde diabos encontrarei leo de mostarda ou sulfureto de potssio? E os elementos qumicos? Comeou a andar, mas deu de nariz contra o cho. Levantou-se e se encaminhou para o bar. Mas, enquanto se servia um copo, afastou bruscamente a garrafa. No, no pensava ir s cegas at que a velhice ou um acidente terminassem com ele. Encontraria a resposta ou deixaria tudo, inclusive a vida. Olhou o relgio. Dez e vinte da manh. Tinha tempo. Foi resolutamente at o corredor e consultou a Lista Telefnica. Tinha um lugar em Inglewood. Quatro horas mais tarde levantava a cabea da mesa de trabalho, com o pescoo duro. Olhou o lquido na agulha hipodrmica: sulfureto de alho. Pela primeira vez sentia que desde o comeo de seu forado isolamento havia conseguido algo. Excitado, correu ao carro e foi mais frente da rea j limpa e assinalada com giz. Era provvel que alguns novos vampiros se ocultaram ali. Mas no tinha tempo para busc-los. Aproximou o carro calada, entrou em uma casa e se dirigiu ao dormitrio. Uma moa jazia na cama, com um fio de sangue na boca. Neville virou de costas a mulher e lhe levantou a camisola para lhe injetar o sulfureto de alho. Em seguida virou-a outra vez e deu um passo para trs. Durante meia hora ficou ali, olhando-a. No ocorreu nada. Nada disto tem sentido, argumentou mentalmente. Se pendurar alhos ao redor da casa, os vampiros no se aproximam. E o alho se caracteriza por esse leo que lhe injetei. E entretanto no aconteceu nada. Maldio, no aconteceu nada! Atirou a seringa ao cho e estremecendo de raiva e frustrao voltou para seu refgio. Antes que comeasse a escurecer instalou uma armao de madeira na grama e pendurou ali umas rstias de cebolas. Passou a noite insone. Pela manh foi olhar a armao de madeira. Outro smbolo: a cruz. Tinha uma dourada na mo que brilhava a luz da manh. Isto tambm afastava os vampiros. Por que? Tinha que existir uma resposta lgica, algo que pudesse aceitar sem cair na superstio? S podia sab-lo de um modo. Tirou a mulher da cama, sem reparar que sempre experimentava com mulheres. No lhe preocupava admitir que a observao fosse vlida. Era o primeiro vampiro com que havia tropeado, nada mais. certo que tinha um homem no vestbulo, mas no ia violar a mulher. Embora s vezes se surpreendia a si mesmo. A conscincia de outro tempo havia se transformado em uma molesta companhia. Levou-a a sua casa, e durante a tarde no ficou com ela. Esteve na garagem revisando a caminhonete. Por fim chegou a misericordiosa noite. Neville fechou a garagem, entrou na casa e trancou a porta. Em seguida serviu-se um copo de usque e se sentou na poltrona, frente mulher. Do teto, justo sobre a sua cara, pendia uma cruz. Por volta das seis e meia a mulher abriu os olhos de repente, como que acordada com uma obrigao determinada e no despertou preguiosamente, mas sim com movimentos claros e precisos.
  • 24. Logo que viu a cruz, afastou os olhos, com um rouco grunhido, agitando-se na cadeira. Por que lhe assusta? perguntou Neville, sobressaltando-se diante do som da sua prpria voz. A mulher olhou Neville. Brilharam-lhe os olhos e a lngua lambeu os lbios como se no formasse parte da boca. O corpo lhe contraa tentando aproximar-se dele. Proferiu um grunhido gutural. Parece um co quando defende seu osso, pensou Neville estremecendo-se. A cruz perguntou nervosamente. por que lhe tem medo? A mulher tentou livrar-se de suas amarras, as mos na borda da cadeira. No falava, s respirava ofegando. A cruz! gritou Neville furiosamente. Colocou-se de p. O copo caiu e se derramou sobre o tapete. Pegou a cruz com dedos rgidos e a aproximou-lhe da cara. A mulher afastou a cabea com um surdo grito de horror e retorceu-se na cadeira. Olhe-a! uivou Neville. O terror paralisava a mulher. O olhar extraviado passeava pelo quarto; olhos grandes e brancos com pupilas negras como a fuligem. Neville lhe tocou o ombro mas em seguida retirou a mo, ensangentada, com os dentes marcados. Sentiu um n no estmago. Rapidamente, esbofeteou-a at lhe tombar a cabea. Minutos mais tarde arremessava o corpo rua e fechava a porta imediatamente. Permaneceu um momento apoiado na porta, respirando pesadamente. Apesar do isolamento das paredes, ouviu-os uivar como chacais, disputando os restos. Pouco depois foi ao banheiro e limpou as feridas com lcool, escarnecendo-se com a dor. Captulo 8 Neville se agachou e pegou um punhado de terra. Deixou-a escapar por entre os dedos, desfazendo os negros torres. Quantos, perguntava-se, dormem na terra, como diz a lenda? Alguns. Ento, que percentagem da lenda era realidade? Com os olhos fechados, soltou lentamente a terra escura. Existia alguma resposta? Se pelo menos tivesse a certeza dos que dormiam na terra, tinham retornado da morte, poderia elaborar alguma teoria. Mas no sabia. Outro problema insolvel. Como o que se tinha deparado na noite anterior. Como reagiria um vampiro maometano diante da viso de uma cruz? Surpreendeu-se ao ouvir sua prpria risada: um rouco latido na manh silenciosa. Meu Deus, pensou, faz tempo que no rio. J tinha esquecido. Recordava a tosse de um co doente. Bom, isso o que sou agora, ao fim e ao cabo: Um co muito doente. Houve um princpio de tormenta por volta das quatro da manh, e as lembranas voltaram para sua memria. Virginia, Kathy, aqueles horrveis dias. Tratou de distrair-se. Era perigoso. Pensar no passado era terminar bebendo. Embora no se explicava por qu havia sobrevivido. Provavelmente, pensou, no h um motivo concreto. Estou muito aturdido para acabar com tudo. Bom... Juntou as mos como se por fim tivesse decidido algo. O que faria agora? Olhou ao redor como se acontecesse algo interessante na rua silenciosa. Muito bem, decidiu impulsivamente, verei se o truque da gua d resultado.
  • 25. Escondeu uma mangueira em uma sarjeta e levou-a assim at uma mesa de madeira. A gua passava pela mesa, passava por outro buraco a uma segunda mangueira, e chegava ao subsolo. Quando finalizou a tarefa, entrou e tomou uma ducha. Em seguida se barbeou e tirou a atadura da mo. A ferida havia cicatrizado bem. Mas isto no lhe tirava o sono. O tempo tinha demonstrado que estava imunizado. s seis e vinte se instalou na sala, frente ao buraco. No momento se espreguiava; doam-lhe todos os msculos. Serviu-se um usque. Quando se aproximou do buraco, Ben Cortman j cruzava a grama. Saia, Neville rosnou Neville, e Cortman, como se lhe ouvisse, devolveu-lhe as mesmas palavras em um grito. Neville continuou ali, imvel, observando Cortman. Em geral, no havia mudado muito de aspecto. Tinha o cabelo ainda preto, seguia sendo corpulento e com o rosto plido. Mas agora levava barba e um grosso bigode. Esta era a diferena fundamental. Antes, quando lhe esperava para irem juntos fbrica, Ben estava sempre perfeitamente barbeado e cheirava a colnia. Parecia estranho v-lo agora: um Ben completamente desconhecido. Em outro tempo tinha conversado com aquele homem, ido com ele ao trabalho, comentando as partidas de beisebol ou os assuntos polticos, e depois da enfermidade e de como estavam Virginia e Kathy, de como estava Freda Cortman, e... Neville sacudiu a cabea. Era intil seguir com isso. O passado estava to longe como o verdadeiro Cortman. Sacudiu novamente a cabea. O mundo est no avesso, pensou. Os mortos caminham pelas ruas, e isso no me surpreende. O retorno dos cadveres se converteu em algo cotidiano. Com que rapidez se aceita o incrvel, se voc o v com freqncia! Tragou um pouco de usque e tratou de pensar a quem se parecia Cortman. Durante um tempo esteve convencido de que Cortman recordava algum, mas no sabia a quem. Encolheu-se de ombros. Que importncia tinha isso? Deixou o copo no cho e foi cozinha para abrir a torneira da gua. Quando voltou a vigiar pelo buraco viu outro homem e uma mulher na grama. Nunca falavam entre si. Davam voltas e voltas, infatigavelmente, como se tratassem de lobos, sem cruzar jamais um olhar, os olhos famintos cravados na casa e na presa que havia dentro. De repente Cortman viu a gua que corria pela mesa e ficou olhando-a. Depois de um momento levantou a cara e sorriu mostrando os dentes. Neville ficou rgido. Cortman saltava de um lado ao outro da mesa. Neville sentiu um n na garganta. O bastardo sabia! Caminhou depressa at o dormitrio e tremendo pegou as pistolas da gaveta da cmoda. Cortman estava pisoteando as bordas da mesa quando a bala o feriu no ombro direito. Retrocedeu cambaleando e caiu no cimento, com as pernas para cima. Neville voltou a disparar e a bala deu contra a calada a uns centmetros de seu corpo. Cortman se levantou grunhindo e a terceira bala lhe alcanou o peito. Neville, com a fumaa acre da pistola ainda no ambiente, tornou a olhar. A mulher apareceu ento diante de Cortman e comeou a levantar a saia. Neville fechou o buraco. No queria ver isso. Havia bastado um segundo para sentir aquela dor ardente em seu interior. Ao cabo de um momento voltou a olhar e Cortman estava passeando, chamando-o. E, sob a luz da lua, de repente recordou a quem se parecia Cortman.
  • 26. Meu Deus, era como Oliver Hardy!. Dos dois curtas-metragens que tinha passado em seu projetor. Cortman era o eco morto do grande cmico. Um pouco mais magro, somente. At o bigode era igual. Oliver Hardy caindo de costas sob o impacto das balas. Oliver Hardy voltando sempre por outra rao, no importava o que ocorresse. Furado pelas balas, cravado por facas, esmagado por automveis, chocando-se contra paredes, afundando no mar, passando por chamins. E voltando sempre, paciente e arroxeado. Isso era Ben Cortman. Um maligno e detestvel Oliver Hardy aporreado e resistente. Meu Deus! No podia parar de rir. Mais que a vontade de rir, isso era um alvio, uma sada. As lgrimas lhe rodavam pelas bochechas. Com as sacudidas o copo se derramou e o lquido molhou-lhe de acima a abaixo, lhe provocando ainda mais risada. O copo por fim caiu no tapete, e Neville tambm, retorcendo-se com espasmos de incontida diverso. A risada incessante encheu a sala. Mais tarde foi o pranto. Introduziu a estaca no estmago, no ombro. No pescoo com uma s martelada. Nos braos e pernas, e sempre acontecia o mesmo: a carne branca ficava coberta pelo sangue vermelho. Acreditava ter encontrado a soluo. Tinha que sangr-los: uma hemorragia. Mas logo, quando encontrou a mulher na casinha branca e verde, e lhe cravou a estaca, a decomposio foi to rpida que teve que fugir, e j no pde provar o seu caf da manh. Quando se recuperou, e se atreveu a voltar, s encontrou sobre a colcha uma linha de algo parecido com sal e pimenta, uma linha to larga como o corpo. Nunca tinha visto nada parecido. Abalado pela cena, saiu devagarzinho da casa e se sentou no carro durante uma hora, bebendo at esvaziar a garrafa. Mas nem sequer o lcool podia apagar aquela impresso. Havia sido tudo to rpido... A martelada ainda lhe soava nos ouvidos, e a mulher j no era mais que uma linha. Recordou um bate-papo com um negro, na fbrica. O homem conhecia o assunto e havia falado de mausolus e de gente metida em caixes hermticos, onde se conservavam com a mesma aparncia de sempre. Mas deixe entrar um pouco de ar tinha dito o negro, e Bum!, transformam- se em uma linha de sal e pimenta. Assim fcil. E o negro fazia estalar os dedos. A mulher, pois, estava muito tempo morta. Possivelmente, lhe ocorreu, era um dos vampiros originrios da praga. S Deus sabia quanto tempo tinha escapado da morte. Neville se sentiu muito deprimido, e nesse dia, e nos seguintes, no fez nada. Ficou em casa, bebendo e tratando de esquecer, e deixou que os corpos se empilhassem no mato, e na frente da casa, sem se importar. Durante vrios dias, sentado na poltrona, com o copo na mo, pensou em sua mulher. E no importava a quantidade de lcool ingerida. Continuava pensando em sua mulher. Via- se a si mesmo entrando na cripta, levantando a tampa do atade. Pensou que algo estava destruindo-se nele. Sentia-se to paralisado, to sereno e to frio. S isso ficaria dela? Captulo 9 Pela manh. Uma ensolarada quietude amenizada pelo canto dos pssaros. Nem um pouco de brisa que movesse os pequenos casulos ao redor das casas, os arbustos ou as cercas de folhas escuras. Uma silenciosa nuvem de calor suspenso sobre o ambiente. O corao de Virginia havia parado.
  • 27. Neville olhava aquele plido rosto, e acariciava timidamente os dedos de sua mulher. Sentado borda da cama, imvel, tinha ficado insensvel como um bloco de carne e ossos. No piscava, e respirava to lentamente que parecia morta. Algo lhe havia passado pela mente. Do instante em que deixou de pulsar o corao de Virginia sentiu a cabea como se fosse de pedra. A calcificao tinha comeado pelo crebro, alastrando-se logo s suas extremidades. Lentamente, com os membros afrouxados, havia-se afundado na cama. E agora no entendia como agentava sentado ali, como o desespero no o jogava ao cho. Mas no podia ficar prostrado. Mos tenazes continham o tempo. Tudo havia parado. A vida e o mundo tinham parado, junto com Virginia. Passaram-se assim trinta minutos, depois quarenta. Logo, pouco a pouco, como se estivesse fazendo um descobrimento, sentiu que o corpo lhe tremia. No era um tremor localizado, um nervo aqui, um msculo l. Tremia todo o corpo, convulsivamente, como um saco de nervos impossvel de dominar. E sua mente, o que se tinha salvado da sua mente, soube, que isso era sua reao. Permaneceu assim durante mais de uma hora, com o olhar fixo no rosto de Virginia. Em seguida, de repente, algo lhe sacudiu o peito, e aquilo terminou. Neville se levantou da cama e saiu da casa. Ao servir o usque derramou a metade na pia. Bebeu o resto de um gole. Apoiou-se contra a parede. Tornou a encher o copo com mos trmulas e bebeu compulsivamente. s um sonho, disse. Foi como se uma voz pronunciasse as palavras em seu interior. Virginia... Voltou a cabea a ambos os lados. Seus olhos examinavam a cozinha como se tivesse que descobrir algo, como se procurasse uma sada naquela casa de horror. Apertou as mos nervosas, uma contra a outra. As formas danavam diante de seus olhos. Sentiu que uma nusea lhe subia pela garganta e separou as mos com fora. Virginia. Deu um passo frente e tropeou. Escapou-lhe um grito. Sentiu uma forte dor no joelho direito que logo se estendeu toda a perna. Arrastou-se cambaleando at a sala. Ficou ali como um sobrevivente de um terremoto, com os olhos cravados na porta do quarto, voltando a presenciar aquela cena. O incndio com suas ferozes chamas vermelhas e amarelas, e a densa coluna de fumaa que subia para o cu. O corpo de Kathy em seus braos. E um homem que, aproximando-se, arrebatava Kathy e a levava como se fosse uma boneca de trapos. E ele ali, de p, suportando aqueles golpes de terror. De repente saltou para frente com um grito rouco: Kathy! Uns braos o contiveram, uns homens com mscaras e avental. Levaram-no arrastado; seus ps deixaram os rastros na areia. Em seguida, sentiu aquela dor na mandbula, e a escurido das nuvens noturnas anularam o dia. O licor que lhe descia pela garganta, a tosse, o ofego, e logo o carro de Ben Cortman, e ele sentado ao volante, rigidamente, enquanto se afastavam. A intensa fumaa cobria o cu como o negro fantasma do desespero terrestre. Recordou e fechou os olhos. No. No permitiria que jogassem ali Virginia. No, ainda que isso lhe custasse a vida. Chegou porta e saiu ao alpendre. Cruzou a grama seca e amarelada e caminhou em direo casa de Ben Cortman. O resplendor do sol lhe cegava. Caminhava com os braos pendurados ao longo do corpo.
  • 28. A melodia tocava quot;Que seco estouquot;. Neville sentiu desejo de quebr-la. Lembrou-se de que Ben havia instalado as campainhas pensando que seria gracioso. Esperou rgido diante da porta, sentindo ainda o pulso na cabea. No importa o que diga a lei, no importa que desobedec-la signifique morrer, no a jogarei ali! Golpeou a porta com o punho. Ben! Silncio. As cortinas brancas pendiam imveis nas janelas da frente. Podia-se ver o sof vermelho e o abajur de p com sua tela de franjas. Neville piscou. Que dia era? Havia esquecido, havia perdido a noo do tempo. Deixou cair a cabea sobre o peito. Uma fria de impacincia lhe invadia o corpo. Ben! Golpeou a porta de novo com os punhos. Maldio!, onde se meteu Ben? Apertou o interfone com o dedo muito rgido e a campainha voltou a tocar a cano repetidamente: Que seco estou, que seco estou, que seco estou... Ofegando empurrou com fora a porta, que se abriu devagar. Estava sem tranca. Neville entrou no vestbulo silencioso. Ben exclamou. Ben, preciso do seu carro. Ele e sua mulher estavam no dormitrio, deitados na cama de casal, silenciosos e imveis em seu estado de coma diurno. Ben, de pijama; Freda, em uma camisola de seda. Ficou um momento olhando-os. No pescoo branco da Freda havia algumas feridas, com umas crostas de sangue. Neville olhou Ben. No mostrava feridas. Ouviu uma voz interior que dizia: Oxal despertasse deste pesadelo. Sacudiu a cabea. No, no era possvel despertar. Encontrou as chaves do carro no escritrio. Pegou-as e abandonou a silenciosa casa. Seria a ltima vez que os via mortos. O motor roncou pesadamente, e Neville deixou-o esquentar alguns minutos enquanto esperava sentado ao volante com os olhos fixos no poeirento pra-brisa. Uma mosca de corpo redondo voava ao redor de sua cabea no quente e fechado interior do carro. Neville olhou a tapearia, de cor verde, sentindo no corpo os tremores do motor. Ao fim colocou o carro em marcha e saiu rua. A casa estava fresca e em silncio. Neville pisou suavemente o tapete, e em seguida seus passos ressoaram na sala. Deteve-se na soleira da porta e contemplou Virginia. Estava deitada de costas, com as mos estendidas para os lados, os dedos brancos ligeiramente fechados. Parecia dormir. Neville voltou para a sala. O que podia fazer? Uma coisa ou outra. Tudo era igual. De qualquer modo, a vida deixava de ter sentido. Parou diante da janela com os olhos perdidos na rua banhada pelo sol. Para que fui procurar o carro, ento?, perguntou-se. No posso queim-la. No quero. E que outra coisa possvel? No h servios fnebres. Todos, sem exceo, devem ser levados ao fogo em seguida. No havia outro sistema, a primeira vista, de evitar o contgio. S as chamas podiam destruir as bactrias. Neville sabia. Sabia que assim era a lei. Mas quantos a cumpriam? Quantos maridos jogavam ali a suas mulheres? Quantos pais incineravam a seus