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  • A narrativa jornalstica e aconstruo do real

    Como as revistas Veja e Isto trataram a manifestao dos

    estudantes da Universidade de So Paulo em 2011

    Bruno Bernardo de Arajo

    ndiceCONSIDERAES PRVIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 NARRATIVA E JORNALISMO: as influncias do modo nar-

    rativo na concepo do discurso jornalstico . . . . . . . . . 42 TEORIAS DO NEWSMAKING: um novo olhar sobre a pro-

    duo jornalstica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73 DOS ESTUDOS NARRATIVOS AO JORNALISMO: o nar-

    rador-jornalista e a personagem jornalstica . . . . . . . . . 104 A ANLISE CRTICA DO DISCURSO COMO METODO-

    LOGIA DE ANLISE DA PRODUO JORNALSTICA . 135 A CONSTRUO DISCURSIVA DA MANIFESTAO DOS

    ESTUDANTES DA USP NAS PGINAS DE Veja E Isto . 145.1 Reportagem 1: A rebelio dos mimados (em anexo) . . . 145.2 Reportagem 2: Quem so os radicais da USP (em anexo) 16CONSIDERAES FINAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS . . . . . . . . . . . . . . 20ANEXOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

    Universidade de Coimbra Portugal, Licenciado em Jornalismo e mestrando emComunicao e Jornalismo. brrunoaraujo@gmail.com.

    brrunoaraujo@gmail.com

  • 2 Bruno Bernardo de Arajo

    Resumo

    indiscutvel o poder social do jornalismo. Cresce, exponencial-mente, o nmero de informaes que recebemos, vindas das mais varia-das origens, sob inmeros suportes. Nessa medida, ser preciso desmi-tificar algumas questes, que rondam o universo meditico, entre asquais, a ideia de que o jornalismo representa ou espelha a realidade.Na verdade, como construtores de narrativas, os jornalistas operam umconjunto de cdigos de estruturao textual que, aliados quilo queeles conhecem do mundo, do sentido (s) aos acontecimentos. Diantedisso, os pressupostos dos estudos narrativos aparecem aqui como indis-cutveis fontes de reflexo. Na tentativa de comprovar, empiricamente,tudo o que ficou dito, faz-se a anlise de duas reportagens das revistasVeja e Isto, que se debruaram sobre uma manifestao de estudantesda Universidade de So Paulo, construindo narrativas, que oscilam en-tre universos semnticos distintos. Como mtodo de anlise, recorre-ses tcnicas da Anlise Crtica do Discurso, com particular ateno aosensinamentos de Teun van Dijk.

    Palavras-chave: narrativa; jornalismo; newsmaking; construo darealidade; Veja; Isto; Universidade de So Paulo.

    Abstract

    It is indisputable the social power of journalism. Grows exponen-tially, the number of reports we received, coming from various sources,in many media. As such, it is necessary to demystify some issues thatplague the media sphere, including the idea that journalism representsor reflects reality. In fact, as builders of narratives, journalists operatea code set of textual structure, which combined what they know of theworld, make sense (s) to events. The assumptions of narrative studiesappear here as undeniable sources of reflection. In an attempt to prove,empirically, all the foregoing, we make an analysis of two news maga-zines Veja and Isto, which have focused on a manifestation by studentsfrom the University of Sao Paulo, constructing narratives, ranging fromdifferent semantic universes . The analysis method, we resort to thetechniques of Critical Discourse Analysis, with particular attention tothe teachings of Teun van Dijk.

    Keywords: narrative; journalism; newsmaking; construction of rea-lity; Veja; Isto, University of So Paulo.

    www.bocc.ubi.pt

  • A narrativa jornalstica e a construo do real 3

    CONSIDERAES PRVIAS

    O universo dos meios de comunicao social foi se constituindo, aolongo dos tempos, como um espao privilegiado de discussoda atualidade, ao qual recorremos, sistematicamente, para obter infor-maes, acerca do que se passa nossa volta. Da mesma forma, ocampo jornalstico, propriamente dito, se estruturou em torno de umconjunto de ideias, por vezes, mticas, relacionadas com o poder socialdo jornalismo, visto como contra-poder, co-de-guarda ou, pomposa-mente, como guardio dos sistemas democrticos.

    Tendo por base essas e outras concepes que formam aquilo aque Traquina (2007) chama a cultura profissional o jornalismo e a suaproduo foram vistos, por muito tempo, como verdadeiros espelhosou representantes fiis dos acontecimentos. A partir dos anos 70 dosculo passado, com a chegada das teorias do newsmaking, passamosa entender a prxis jornalstica, contrariamente, como uma construtorasocial da realidade noo que levou diversos autores a falarem denotcias, reportagens e outros produtos informativos, como narrativas.

    Partido desse pressuposto, um dos objetivos do presente artigo evidenciar a existncia de formas distintas de narrar a realidade, quemudam, consoante a forma como o jornalista interpreta e estrutura,discursivamente, os acontecimentos. Nesse sentido, convocaremos al-guns conceitos dos estudos narrativos entre eles, o prprio conceito denarrativa para falar de narrativas jornalsticas, como produes espe-ciais, pois vincadas na realidade factual, mas, que mantm uma intensaconexo epistemolgica com outros tipos de narrativa.

    Assim, como forma de demonstrar, empiricamente, todo o sentidodeste background terico, acerca da construo do real, por meio daprtica jornalstica, desenvolveremos a anlise de duas reportagens, pu-blicadas nas revistas brasileiras Veja e Isto, sobre uma manifestao deestudantes da Universidade de So Paulo, em outubro de 2011. Atravsdas tcnicas da Anlise Crtica do Discurso, demonstraremos comouma mesma realidade poder ter sentidos (to) diferentes, em funoda construo narrativa e da adoo de determinadas estratgias discur-sivas.

    O artigo estrutura-se, portanto, numa vertente terico-prtica, sob osseguintes pontos: Narrativa e jornalismo: as influncias do modo nar-

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  • 4 Bruno Bernardo de Arajo

    rativo na concepo do discurso jornalstico; teorias do newsmaking:um novo olhar sobre a produo jornalstica; dos estudos narrativos aojornalismo: o narrador-jornalista e a personagem jornalstica; desen-volvimento da anlise.

    1 NARRATIVA E JORNALISMO: as influncias domodo narrativo na concepo do discursojornalstico

    Durante muitos anos, a narratologia esteve circunscrita, unicamente,ao universo da literatura. Era natural que acadmicos dos mais diver-sos centros intelectuais do mundo dedicassem as suas investigaes aoestudo de um dos trs grandes modos literrios. O romance, notvelgnero da modernidade, foi encarado como exemplo emblemtico, da-quilo que se entendia por narrativa ou linguagem narrativa plena.

    No entanto, na segunda metade do sculo XX, os estudos de homenscomo Roland Barthes, Claude Bremond, Grard Genette, A. J. Greimase muitos outros que utilizaram as pginas da revista Communica-tions, como grande espao de debate - iniciaram uma mudana radicalnos pressupostos conceptuais da narrativa, contribuindo para a transfor-mao da narratologia, numa rea de estudos interdisciplinar, transdis-ciplinar e, por vezes, contradisciplinar.

    Com isso, a narrativa deixa de estar associada apenas linguagemverbal escrita, para ser encarada como um fenmeno universal, ampla-mente vasto, susceptvel de apresentar-se sob diferentes suportes e emtempos diversos. Nesse sentido, o conceito foi de tal maneira alargado,que tem se tornado, cada vez mais, objeto de estudo de inmeras reas,dentro e fora das cincias sociais e humanas. Como forma de demons-trar a transversalidade e a complexidade da narrativa, diz-nos Barthes,num dos textos seminais, desta nova fase dos estudos narrativos:

    (. . . ) le rcit est prsent dans tous les temps, dans tousles lieux, dans toutes les socits; le rcit commence aveclhistoire mme de lhumanit; il ny a pas, il ny a jamaiseu nulle part aucun peuple sans rcit; toutes les classes,tous les groupes humains ont leurs rcits (. . . ) le rcit se

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  • A narrativa jornalstica e a construo do real 5

    moque de la bonne et de la mauvaise littrature: interna-tional, transhistorique, transculturel, le rcit est l, commela vie (BARTHES, 1977:8-9)

    Dessa forma, partindo dos ensinamentos de Barthes, faz todo o sen-tido analisar como a narratologia moderna poder auxiliar o estudo so-bre a produo jornalstica. Uma aproximao entre linguagem narra-tiva e discurso jornalstico s poder gerar bons resultados, uma vezque, podemos admitir , o trabalho dos jornalistas gira em torno daproduo de narrativas, tendo a realidade factual como grande referente.

    Para que possamos entender a notcia, a reportagem e outras pro-dues jornalsticas, como construes narrativas, precisamos recorrerao prprio conceito de narrativa, problematizado por alguns dos nomesmais contundentes dos estudos narrativos. Segundo Grard Genette anarrativa a representao de um acontecimento ou de uma srie deacontecimentos, reais ou fictcios, por meio da linguagem e, mais parti-cularmente, da linguagem escrita (GENETTE apud SILVA, 2007:50).Todorov, por sua vez, acredita que a narrativa um texto referencialcom temporalidade representada (TODOROV apud SILVA, 2007:50)

    Ambos os autores elucidam aspectos cruciais para a concepo dequalquer narrativa, incluindo as jornalsticas. Se os aplicarmos ao gne-ro reportagem, por exemplo, encontraremos evidentes semelhanas. Emprimeiro lugar, a prpria etimologia da palavra reportare, quer dizer:transportar indica um movimento de transporte de uma determinadarealidade para o pblico, o que faz da reportagem um texto referencial,nas palavras de Todorov. Da mesma forma, organiza um conjunto deaes sucessivas e as insere numa linha temporal especfica. Natural-mente, convm dizer, nem as aes, nem o fator tempo de uma pro-duo jornalstica, assumem a mesma complexidade que teriam em umromance ou em outra grande narrativa.

    Ainda nesta linha, Seymour Chartman oferece-nos um outro con-ceito de narrativa que, da me