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Educação Superior em Informática Médica: Oportunidade para Portugal Álvaro Rocha, José Braga de Vasconcelos, Rui Moreira GIMED (Grupo de I&D em Informática Médica) – Universidade Fernando Pessoa Praça 9 de Abril, 349; 4249-004 Porto – Portugal {amrocha, jvasco, rmoreira}@ufp.pt Abstract. Assuming that organisational knowledge is the most important asset of modern organisations, this paper explores the application of information technologies in healthcare systems and the underlying higher education requirements. This work focuses Portugal and the related education opportunities concerning the medical informatics domain. The main objective is the development of human resources and their competencies in order to satisfy the existing needs in healthcare units. To answer these quests, future healthcare professionals must understand their content domain and knowledge sources through an effective management of information systems (IS). This joint competency including healthcare and IS knowledge should improve the quality of services at the existing Portuguese healthcare units. Resumo. Considerando que a informação e o conhecimento são os recursos mais importantes das organizações modernas, particularmente das organizações ligadas à prestação de cuidados de saúde, apresentamos neste artigo uma reflexão sobre as oportunidades, para Portugal, de educação superior em informática médica. O objectivo dessa educação será preparar recursos humanos capazes de satisfazerem necessidades de informação e comunicação de unidades de serviços de saúde, através de planeamento, gestão, concepção, integração, implementação e avaliação eficiente e eficaz de sistemas e tecnologias de informação. A educação nesta área será, em si mesma, um agente de mudança que, através da educação e consultoria, actuará como catalizador da reivindicada melhoria da qualidade dos serviços prestados pelas unidades de saúde portuguesas. 1. Introdução A informática médica é um assunto de importância crescente em todo o mundo, pelo contributo que pode proporcionar na modernização e melhoria da qualidade da prestação de serviços de cuidados de saúde, através de uma melhor gestão da informação de saúde assim como dos recursos associados. Muitos países viram em cursos superiores relacionados com a informática médica o meio de evoluírem para patamares de prestação de serviços de saúde IV SBQS - V Workshop de Informática Médica
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Educao Superior em Informtica Mdica:

Oportunidade para Portugal

lvaro Rocha, Jos Braga de Vasconcelos, Rui Moreira

GIMED (Grupo de I&D em Informtica Mdica) Universidade Fernando Pessoa Praa 9 de Abril, 349; 4249-004 Porto Portugal

{amrocha, jvasco, rmoreira}@ufp.pt

Abstract. Assuming that organisational knowledge is the most important asset of modern organisations, this paper explores the application of information technologies in healthcare systems and the underlying higher education requirements. This work focuses Portugal and the related education opportunities concerning the medical informatics domain. The main objective is the development of human resources and their competencies in order to satisfy the existing needs in healthcare units. To answer these quests, future healthcare professionals must understand their content domain and knowledge sources through an effective management of information systems (IS). This joint competency including healthcare and IS knowledge should improve the quality of services at the existing Portuguese healthcare units.

Resumo. Considerando que a informao e o conhecimento so os recursos mais importantes das organizaes modernas, particularmente das organizaes ligadas prestao de cuidados de sade, apresentamos neste artigo uma reflexo sobre as oportunidades, para Portugal, de educao superior em informtica mdica. O objectivo dessa educao ser preparar recursos humanos capazes de satisfazerem necessidades de informao e comunicao de unidades de servios de sade, atravs de planeamento, gesto, concepo, integrao, implementao e avaliao eficiente e eficaz de sistemas e tecnologias de informao. A educao nesta rea ser, em si mesma, um agente de mudana que, atravs da educao e consultoria, actuar como catalizador da reivindicada melhoria da qualidade dos servios prestados pelas unidades de sade portuguesas.

1. Introduo A informtica mdica um assunto de importncia crescente em todo o mundo, pelo contributo que pode proporcionar na modernizao e melhoria da qualidade da prestao de servios de cuidados de sade, atravs de uma melhor gesto da informao de sade assim como dos recursos associados.

Muitos pases viram em cursos superiores relacionados com a informtica mdica o meio de evolurem para patamares de prestao de servios de sade

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coadunados com as exigncias dos cidados, bem como racionalizao das despesas, destacando-se nestes aspectos, sobretudo, os pases anglo-saxnicos [Lucas et al. 2000]

Acontece, porm, que Portugal no possui cursos superiores em informtica mdica, mas o oramento governamental do Ministrio da Sade continua invariavelmente a aumentar significativamente [e.g., Campos e Costa 2005] e os cidados a reivindicar por mais e melhores servios de prestao de cuidados de sade [DECO 2004].

baseado nestas constataes que advogamos a criao de cursos superiores de informtica mdica em Portugal. Assim, nas seces seguintes apresentamos o domnio cientfico da informtica mdica, o papel que as tecnologias de informao desempenham nos cuidados de sade, a situao da informtica mdica em Portugal, quer ao nvel da sua aplicao quer ao nvel da educao e investigao, e finalmente tecemos algumas consideraes sobre a necessidade e oportunidade da educao em informtica mdica.

2. O Domnio da Informtica Mdica A Informtica Mdica considerada uma disciplina cientfica pelo facto do seu domnio estar bem definido [Warner 1995, Friedman e Wyatt 1997]. Este domnio corresponde interseco das cincias da sade com as cincias da computao e os sistemas de informao. Trata-se de uma disciplina que trata do armazenamento, recuperao e uso optimizado de dados, informao e conhecimento biomdico, para ajudar na gesto e resoluo de problemas de tomada de deciso na rea da sade [Shortliffe e Perreault 2000].

A rea da sade uma das mais recentes reas de aplicao das Tecnologias da Informao (TI) de uma forma generalizada e organizada [Jepsen 2003]. O principal motivo desta constatao, prende-se com a heterogeneidade e complexidade dos servios de sade, assim como a dificuldade de formar e definir competncias conjuntas nas duas reas de conhecimento subjacentes: cincias da sade e cincias da computao.

Neste contexto, a Informtica Mdica integra um conjunto de disciplinas subjacentes associao das TI e de outros assuntos das cincias da computao na rea da medicina e respectivos servios de sade (Figura 1). Um exemplo representativo da referida interseco de competncias a telemedicina, onde, por exemplo, pacientes em locais rurais remotos podem ser cuidados ou obter diagnsticos especializados distncia por mdicos que se encontram em grandes centros urbanos ou em centros de conhecimento cientfico. O sucesso destas sinergias tem por base o trabalho conjunto efectuado por investigadores e cientistas nas reas da sade e das cincias da computao.

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Figura 1: O Corpo da Informtica Mdica.

3. Papel das Tecnologias da Informao nos Cuidados de Sade As unidades de cuidados de sade em geral comeam a movimentar-se no sentido de modernizao e automatizao de todos os seus processos [e.g., CCE 2004, Pimenta 2004, Campos 2005]. Concomitantemente a literacia informtica da maioria dos profissionais de sade tem aumentado consideravelmente, assim como a dos pacientes em geral [e.g., CEC 2004, Castro et al. 2003]. Desta forma, as oportunidades para investigao e prtica da informtica mdica tornam-se uma realidade.

Por exemplo, o processo clnico electrnico como veculo para a investigao clnica, assim como para servir e monitorizar pacientes, tem vindo a ser reconhecido a nvel mundial [Lucas et al. 2000, Jepsen 2003]. Existiram (e existem actualmente) muitas iniciativas, quer em cuidados de sade primrios quer em cuidados de sade especializados que, beneficiaram da aplicao de sistemas e tecnologias de informao, com o objectivo de substituir os registos dos pacientes em papel pelos respectivos registos electrnicos, de modo a facilitar e melhorar o necessrio acompanhamento dos pacientes.

A maioria do equipamento mdico actual sobretudo controlada por software. O tratamento e interpretao de imagens mdicas para apoio deciso clnica um bom exemplo, tendo evoludo consideravelmente nos ltimos tempos. Embora a extenso com que os sistemas de informao clnicos, possivelmente integrados com bases de dados de imagens, varie grandemente entre regies e pases, bvio que os sistemas e tecnologias de informao desempenharo no futuro um papel cada vez mais importante. Em geral, as autoridades de cuidados de sade vem a sua aplicao e desenvolvimento como um caminho a seguir para melhorar o acesso e a qualidade dos servios, obtendo ganhos em servios e em sade [CCE 2000, CEC 2004].

A Informtica Mdica um domnio que tem vindo a ser abordado ao longo dos ltimos 30-40 anos [Patton e Garden 1999]. Alguns enfoques tm incidido no processamento e interpretao de imagem, registo electrnico de pacientes, semntica da terminologia mdica, interpretao e segurana de dados, entre outros. O que tem mudado nos anos mais recentes deve-se ao facto dos computadores inicialmente terem bastantes limitaes, sendo mantidos centralmente, mas actualmente computadores pessoais poderosos e relativamente baratos esto disponveis para todos os intervenientes nos processos de cuidados de sade. Como consequncia, a informao mdica deixa de ser mantida e guardada por uma unidade central dedicada, passando a

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ser mantida e guardada pelos intervenientes envolvidos na sua produo (mdicos, enfermeiros e outros profissionais de sade).

Isto tem resultado num desenvolvimento gradual de uma estrutura organizacional descentralizada, montada volta do conceito de sucesso tecnolgico que a arquitectura cliente-servidor. O conhecimento e a informao mdica so agora acedidos por aqueles que esto autorizados, usando computadores-clientes poderosos e independentes. Consequentemente, o papel das organizaes centrais deixa de ser importante e til. Neste contexto, o intervalo de deciso bem como o ciclo de desenvolvimento de cuidados de sade reduzido drasticamente [Lucas et al. 2000].

Qualquer profissional de sade que pretenda produzir ou utilizar informao mdica, tem actualmente meios fceis de o fazer. Um nmero crescente de profissionais de sade, incluindo os mdicos, esto prontos a tornar as potencialidades dos sistemas e tecnologias de informao em vantagens na execuo das suas actividades profissionais. Por exemplo: um estudo de Castro et al. (2003) revelou que 67% dos mdicos dos Centros de Sade da Regio do Porto usavam regularmente a Internet; um outro estudo de Carreira et al. (2003) mostrou que 92% dos mdicos do Hospital S. Joo (Porto) usavam a Internet para fins profissionais; e dados estatsticos mais recentes da Unio Europeia indicam que este valor de 80% quando nos focamos na totalidade dos mdicos dos pases da Comunidade Europeia [CEC 2004].

No obstante, existem limitaes fundamentais para que o progresso seja o esperado em aspectos importantes da informtica mdica, devido ao fraco conhecimento e experincia relacionados com sistemas e tecnologias de informao avanadas. Falamos particularmente em sistemas baseados em conhecimento, data-mining e inteligncia artificial, modelao matemtica, tratamento e interpretao de imagens, sistemas de linguagem natural e agentes inteligentes.

4. A Informtica Mdica em Portugal A utilizao de TI em unidades de sade portuguesas tem vindo a ser uma realidade nos ltimos anos. Contudo, um facto que ainda nos encontramos num estado primrio de desenvolvimento destes sistemas [Vasconcelos et al. 2004]. Por exemplo, um determinado paciente ainda no detm qualquer controlo individual do seu trajecto clnico, ou seja, existe ainda uma lacuna na definio de SI focados no paciente. Este SI pode ser implementado atravs de um portal de sade no qual cada paciente poder aceder ao seu historial clnico de forma integrada. Este sistema ainda no uma realidade dada a falta de integrao entre as diferentes unidades de sade (hospitais, centros de sade, instituies de apoio social e domicilirio e empresas/fornecedores de servios de TI e comunicaes).

Por outro lado, os hospitais e centros de sade portugueses comearam a utilizar de forma generalizada um conjunto de TI, incluindo as tecnologias de apoio deciso, em diferentes reas da actividade hospitalar. O Instituto de Gesto Informtica e Financeira da Sade (IGIF1) tutelado pelo Ministrio da Sade a principal entidade dinamizadora da aplicao das TI nos diferentes servios de sade pblica em Portugal. Um exemplo representativo do trabalho desenvolvido por esta organizao a aplicao

1 http://www.igif.min-saude.pt

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http://www.igif.min-saude.pt/

de gesto de doentes hospitalares (SONHO): SI clnico implementado nas principais unidades hospitalares. Este sistema tem como objectivo principal efectuar a gesto dos dados do paciente, desde a sua entrada num determinado hospital, tendo em conta a sua caracterizao e a manipulao de dados referentes ao seu trajecto (histria) clnica. Pretende-se deste modo facilitar a integrao e a fluidez entre os diferentes servios de sade hospitalares. Mas este sistema tem que ser melhorado, por exemplo, para permitir gerir e integrar de forma transparente e distribuda (com middleware apropriado) a informao existente nas diferentes bases de dados locais e respectivas aplicaes legadas responsveis por essa gesto. Os sistemas actuais impedem uma viso global e coerente do sistema. Basta referir que o mesmo utente pode estar registado em diferentes hospitais de forma independente, sendo visto como um paciente diferente em cada sistema.

Outra entidade de referncia a Associao Portuguesa de Informtica Mdica (APIM2). Esta associao tem contribudo de forma significativa, h duas dcadas a esta parte, para a investigao e o desenvolvimento da informtica mdica em Portugal. A APIM desenvolve um conjunto de projectos e respectivas publicaes no estudo de aplicaes de TI na rea da sade pblica, na promoo da disciplina de informtica mdica nos cursos superiores de sade e no intercmbio de pessoas. Promove ainda a partilha de informao entre comunidades cientficas afins (e.g., medicina, biologia, bioqumica, farmcia, sistemas de informao e cincias da computao).

Mais recentemente, outras organizaes emergiram no interior das universidades portuguesas, quer no sector pblico quer no sector privado, com o objectivo de promoverem a investigao e o desenvolvimento em informtica mdica. Um estudo recente [Lopes et al. 2004] identificou nove centros de investigao espalhados pelo pas, dos quais destacamos o SBIM3 (Servio de Biostatstica e Informtica Mdica) da Universidade do Porto e o GIMED4 (Grupo de Investigao e Desenvolvimento em Informtica Mdica) da Universidade Fernando Pessoa.

Mas apesar de todos os esforos levados a cabo, a informtica mdica em Portugal ainda se encontra numa fase embrionria, sobretudo por trs factores:

Desprezo considervel pela aplicao de TI em unidades de sade, nomeadamente em procedimentos to simples como a disponibilizao de contedos na Web sobre as mesmas [e.g., Rocha et al. 2004, INE/UMIC 2005];

Mesmo havendo alguns bons exemplos de aplicao de TI em unidades de sade, falta uma viso integrada e coesa para os sistemas e tecnologias de informao das diferentes unidades do Servio Nacional de Sade [Martinho 2004, Pimenta 2004, Campos 2005];

Inexistncia de formao superior especfica no domnio da informtica mdica.

2 http://apim.med.up.pt 3 http://sbim.med.up.pt 4 http://gimed.ufp.pt

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http://apim.med.up.pt/http://sbim.med.up.pt/http://gimed.ufp.pt/

5. Educao em Informtica Mdica Uma vez que os cidados, os profissionais e as autoridades de sade reconhecem a crescente importncia da utilizao de TI nos cuidados de sade [CEC 2004, Pimenta 2004, Rocha et al. 2004, Campos 2005], premente e necessrio um corpo de recursos humanos apropriadamente qualificado na rea da informtica mdica [Buckeridge 1999, Kaczorowski et al. 2000]. No existindo em Portugal nenhum curso superior que supra esta necessidade na ntegra, parece-nos ainda mais pertinente e necessria formao graduada e ps-graduada em informtica mdica.

Portugal s agora comea a despertar para a necessidade de possuir recursos humanos capazes de satisfazerem as necessidades especficas da informtica mdica. Cremos que a Comisso Europeia tem sido a principal entidade responsvel por este acordar, atravs do Plano de Aco para a e-Sade na Europa [CEC 2004]. Contudo, as iniciativas portuguesas relacionadas com formao em informtica mdica so residuais.

Identificamos o Diploma de Especializao em Sistemas de Informao para a Sade5 lanado recentemente pelo INA (Instituto Nacional de Administrao), e a licenciatura em Bioinformtica lanada em 2003/04 pela Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Catlica Portuguesa6 e em 2004/05 pela Universidade dos Aores7. Chama-se a ateno, no entanto, para a amplitude estreita deste ltimo curso, focando-se apenas na aplicao de TI na rea da bioqumica. Assinalamos igualmente a incluso de algumas disciplinas de informtica mdica em cursos superiores das reas das cincias da sade e das cincias da computao. So, por exemplo, os casos das licenciaturas em Anlises Clnicas e Medicina Dentria da Universidade Fernando Pessoa8 e da licenciatura em Engenharia Informtica da Universidade de Coimbra9.

Efectivamente um despertar serdio de Portugal para a educao em informtica mdica, quando existem a nvel internacional, desde h vrios anos, muitos cursos superiores na rea. Neste aspecto destacam-se sobremaneira os pases anglo-saxnicos, nomeadamente o Canad, os Estados Unidos e o Reino Unido. Outros seguem desde h muito tempo o seu exemplo, tais como Dinamarca, Noruega, Sucia, Alemanha, Holanda, Espanha e Turquia.

Apesar do reconhecimento de que o uso adequado de TI em cuidados de sade um factor que contribui substancialmente para a melhoria da sua qualidade [e.g., CEC 2004, ISC 2004, Santos 2005, Campos 2005], torna-se muito estranho Portugal no dispor de qualquer curso superior em informtica mdica. Considerando que muitos dos actuais candidatos formao e graduao em medicina ficam de fora por falta de vagas em Portugal no ano lectivo 2004/05 apenas foram disponibilizadas 1134, vemos a criao de cursos de graduao em informtica mdica como uma forma de suprir o

5 http://www.ina.pt/diplomas/desist.htm 6 http://www.ucp.pt 7 http://www.uac.pt 8 http://www.ufp.pt 9 http://www.uc.pt

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http://www.ina.pt/diplomas/desist.htmhttp://www.ucp.pt/http://www.uac.pt/http://www.ufp.pt/http://www.uc.pt/

inconformismo de alguns deles, proporcionando-lhes a possibilidade de virem a exercer uma actividade profissional bem remunerada na rea das cincias da computao mas simultaneamente relacionada com as cincias da sade e consequentemente cuidados de sade.

Acreditamos, tal como prestigiadas entidades portuguesas e internacionais [IMIA 2000, UWM 2004, Santos 2005], que as escolas superiores que decidirem apostar em cursos de informtica mdica tero no futuro um retorno elevado, quer para si, quer para a regio em que se inserem, quer ainda para os pases em geral.

Em suma, a informtica mdica um assunto cuja importncia e necessidade so cada vez mais evidentes, levando a que a formao de recursos humanos nesta rea seja fundamental para a racionalizao e melhoria dos servios de cuidados de sade do sculo XXI. Estes servios consomem actualmente na Europa 9% do total da fora de trabalho [CEC 2004].

6. Consideraes Finais Face ao exposto nas seces anteriores, facilmente se infere que a informtica mdica actualmente a base para a compreenso e prtica da medicina moderna. Mas ser que isto significa a necessidade de profissionais de informtica mdica em Portugal?

Estamos plenamente convencidos que sim. Os mdicos e outros profissionais de sade lidam constantemente com um grande volume e complexidade de informao. A qualidade e eficcia da assistncia mdica dependem directamente da qualidade da gesto, acesso e manipulao desta informao [IMIA 2000, Cimbron et al. 2003].

Esta qualidade somente pode ser proporcionada por profissionais com conhecimento integrado de cincias da sade e cincias da computao, capazes de categorizar fontes de informao biomdica; facilitar a recuperao de informao; sustentar necessidades de informao clnica; automatizar estatsticas de altas hospitalares; desenvolver sistemas de registo mdico computorizado; melhorar o atendimento ao paciente; auxiliar no diagnstico e terapia, entre outros.

Alm disso, ao investimento portugus e europeu planeado para os prximos anos em infra-estruturas de informtica mdica [CEC 2004, Pimenta 2004, Campos 2005] ter necessariamente de corresponder um investimento em recursos humanos que assegurem adequadamente o desenvolvimento, implementao, manuteno e avaliao dessas mesmas infra-estruturas [Buckeridge 1999].

No havendo em Portugal qualquer curso superior que forme um corpo de recursos humanos com este perfil, esto reunidas as condies para que a procura destes profissionais seja elevada, tal como vem acontecendo com os profissionais de medicina [Jelley e Biscaia 2004] e da rea da informtica em geral [CEC 2001].

Ao no termos disponvel informao sobre a procura de formao e empregabilidade de profissionais de informtica mdica em Portugal, recorremos a fontes de informao de outras zonas geogrficas para demonstrar que efectivamente no viremos a ter problemas desse tipo. A nossa fonte de informao principal a proposta de formao em Informtica Mdica da Universidade de Victoria, no Canad [Victoria 2002].

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Esta universidade realizou no ano 2000 um inqurito a 97 directores de informtica de instituies de sade canadianas. Dos 40 respondentes, 60% no conseguiam preencher todas as vagas disponveis de pessoal de informtica mdica, 67% tinham experimentado dificuldades em reter pessoal com esse perfil, 82% esperavam que a oferta de pessoal de informtica mdica aumentasse no mercado e 60% afirmaram ter pago formao em informtica mdica aos seus recursos humanos.

A mesma Universidade de Victoria, num inqurito feito em 2001, a 224 participantes da sua Conferncia de e-Health, revelou que 94% deles indicou a necessidade da existncia de formaes em informtica mdica graduada, 43% expressou interesse em programas de mestrado e 18% em programas de doutoramento ou ps-doutoramento.

Ainda segundo a Universidade de Victoria, nos ltimos 6 anos tinham recebido mais de 600 pedidos para estudos ps-graduados em informtica mdica. Mais de 70% dos pedidos eram originrios da Europa e da sia. Devido limitao de recursos e vagas, a universidade apenas pde aceitar menos de 3% desses candidatos.

Mas um panorama similar verifica-se igualmente noutras universidades, nomeadamente nas universidades europeias de Amsterdam e Utrech [Lucas et al. 2000] e nas universidades americanas de Utah e Standford [Patton e Gardner 1999, Shortliffe e Garber 2002], onde a procura de formao em informtica mdica muito superior sua capacidade de resposta.

Em sntese, conclumos que Portugal necessita dispor de educao superior em informtica mdica para responder aos desafios que se colocam s entidades relacionadas com cuidados de sade do sculo XXI, prevendo-se uma procura e empregabilidade elevada.

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