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  • Do puzzle collage

    Da collage bricolage EURAU12 ABSTRACT. As Panerai (1986) stated, the magnitude of the problems posed by contemporary urbanization, makes us work from the ordinary production. Urban structures are the result of a process based on multiple autonomous interventions. Understanding how each individual project shall participate on the production of large scale urban structures involves the understanding of those processes: its actors, its dynamics, its rules, its contexts. Different processes should imply different attitudes from architects who design each intervention. During the last decades, urbanization processes have changed profoundly. And yet, it seems that the models which guide the design of its elements are still linked to traditional systems of urban growth. Puzzle, Collage and Bricolage are three metaphors which describe three different kinds of urbanization processes, and are proposed as apparatus to reason on which is the architects role on those processes. KEYWORDS: urbanization processes, extensive urbanization, intelligibility, fragmentation, housing developments, crisis.

    Nuno Travasso* * Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto Via Panormica, s/n, 4150-755 Porto, Portugal. ntravasso@arq.up.pt +351 226 057 100

  • 1. Introduo

    1.1. Do papel do arquitecto na produo de estruturas urbanas

    Haia, como qualquer outra cidade, feita, fundamentalmente por casas iguais. Estas casas alinham-se em ruas, neste caso rectas. [] Aqui e ali h um aberto. Poder ser um jardim ou um edifcio significativo para a cidade um monumento. Para ns, arquitectos, raramente h a possibilidade, a oportunidade, de desenhar um desses monumentos. Na maior parte dos casos e s vezes sempre, durante toda a vida desenhamos os edifcios que fazem o tecido contnuo de uma cidade. H portanto, basicamente, uma repetio. [] De qualquer modo, a beleza e a grandeza dos monumentos depende da qualidade deste tecido contnuo que encarado como pouco significativo ou modesto.

    lvaro Siza Vieira iniciava assim, em 1990, uma famosa conferncia na qual sublinhava a necessidade do arquitecto reconhecer e assumir o seu papel na produo do tecido urbano, determinante do carcter e da identidade da cidade. Um tecido urbano feito daquele que o material mais banal da urbanizao a habitao corrente com base num processo de repetio.

    O presente artigo parte da reflexo sobre este modo de participao do arquitecto no processo de urbanizao. Pergunta-se: como deve o arquitecto participar atravs do projecto de intervenes pontuais e de carcter corrente na construo de estruturas mais vastas e possuidoras de um sentido prprio? Uma questo que ter de ter em conta a condio contempornea e os actuais processos de urbanizao, e que se estende, por implicao directa, a outros actores e procedimentos envolvidos no processo. Segue-se assim o repto de Panerai, que afirma que a magnitude dos problemas que a urbanizao coloca actualmente nos obriga a trabalhar a partir da produo corrente, quer dizer, com o financiamento normal, com processos construtivos usuais e com profissionais de qualidade mdia (1986. 181).

    1.2. Dois deslocamentos

    Procurando reenquadrar a questo, propem-se dois deslocamentos de contexto em relao ao cenrio descrito por lvaro Siza:

    1. alterao de contexto fsico: Quando samos dos centros cannicos e consolidados e nos debruamos sobre a urbanizao extensiva maioritria tanto em extenso como em populao constatamos que os modelos estabelecidos, que nos servem de base aco projectual, deixam de ser operativos enquanto instrumentos de actuao nesses contextos. Deixamos de saber como fazer.

    2. alterao de contexto econmico: A actual crise deixou claro que no temos nem a necessidade nem os recursos para a construo massiva de novos fogos, levando ao reconhecimento de que o imobilirio residencial no pode continuar a ser entendido como fora motriz da urbanizao. Deixamos de saber o que fazer.

  • 1.3. Metfora enquanto ferramenta

    Judith Kinnard sublinha a importncia da metfora enquanto instrumento no seio das disciplinas urbansticas. A metfora, refere, oferece-nos uma imagem mental das redes abstractas [] que conformam o fenmeno urbano enquanto algo concreto e compreensvel (1998. 17). E porque as metforas nos ajudam a produzir sentido a partir da realidade, transformando conceitos abstractos em coisas concretas, que elas parecem ser dispositivos necessrios ao nosso pensamento sobre cidades (ibid. 20).

    Mas as metforas no podem ser vistas apenas como figuras ilustrativas ou explicativas. Elas assumem o controlo da situao com a sua terminologia e as suas ferramentas. Algo especialmente claro no desenho urbano, cuja natureza abstracta [] parece tornar tanto os seus processos como os seus produtos particularmente susceptveis aco destas figuras de discurso. (ibid. 17). Ou seja, as metforas oferecem interpretaes do real, conferindo-lhe sentido(s). E sero, em grande parte, tais interpretaes a guiar e conformar o modo como arquitectos e urbanistas intervm nessa realidade.

    O presente artigo parte de trs metforas puzzle, collage e bricolage entendidas enquanto descritores de trs atitudes do arquitecto no que concerne sua participao na produo de estruturas urbanas, a partir do projecto de intervenes pontuais. Trs atitudes que decorrem de processos de transformao do territrio distintos, resultantes, por seu lado, de diferentes contextos.

    2. Do Puzzle Collage

    O puzzle parte de uma imagem da qual so recortadas as peas. O objectivo a reconstruo dessa imagem predefinida. Aqui, o elemento no preexiste ao conjunto, no mais imediato nem mais antigo, no so os elementos que determinam o conjunto, mas o conjunto que determina os elementos [] s as peas reunidas tomaro um carcter legvel, assumiro um sentido. (PEREC, 1989[1978]. 13).

    Ao contrrio, a collage parte de elementos autnomos preexistentes e com lgicas prprias que se articulam no sentido de criar uma nova unidade. No h uma imagem predefinida a reproduzir; no h um fim a atingir. O resultado aberto e redefine-se no seu todo a cada nova adio. E por isso, nunca est terminado, tal como nunca est incompleto.

    2.1. Novas peas, novo jogo

    Afirmava Siza que uma cidade feita, fundamentalmente, por casas iguais. No entanto, quando olhamos para a urbanizao extensiva do noroeste nacional, percebemos que esta cidade feita, fundamentalmente, por loteamentos (e operaes urbansticas equiparveis). E a esta alterao da pea elementar da urbanizao corresponde uma profunda alterao nas lgicas e processos de transformao do territrio.

    Estamos hoje longe do urbanismo de traados. O processo de urbanizao no pode j ser visto como a sucessiva adio de pequenos elementos casas iguais que se associam a uma estrutura existente ruas construindo uma imagem previamente determinada, como se de um puzzle se tratasse. O jogo outro e no oferece uma imagem final a perseguir impressa na tampa da caixa.

  • A pea base deixa de ser o edifcio e passa a ser o empreendimento de maior escala, que garante a rendibilidade da operao. Este no s traz novas tipologias e novas escalas de desenho e de interveno. Passa tambm a integrar, numa mesma operao, parcelamento, infra-estruturao e ocupao (SILVA, 2005). E, ao incorporar edificado e conjunto de espaos pblicos, deixa de poder ser entendido enquanto elemento que se associa a uma estrutura existente, passando a constituir-se como parte construtora dessa estrutura. A definio da estrutura urbana, competncia que nos modelos cannicos pertenceria ao Estado, transfere-se assim, em parte, para os promotores privados em especial num momento em que os poderes pblicos no revelam capacidade de assumir a sua construo, ou simplesmente o seu traado.

    Fig.1 Loteamentos em Vila Nova de Famalico

    A estrutura urbana vai ento sendo definida pela sucesso de operaes de urbanizao autnomas, que tm revelado srias dificuldades em se articular entre si, e em se relacionar com a sua envolvente directa, no sentido de produzir estruturas contnuas e inteligveis para quem as percorre.

    Algo que decorrer, em parte, das lgicas que determinam o desenho destas peas: assentes em modelos genricos, determinados e testados pelo mercado imobilirio, e baseados em princpios de segurana, exclusividade e distino que tendem a sublinhar a autonomia do produto (MUXI, 2004).

    Mas a referida falta de articulao no resulta apenas de tais modelos. Nada no modo como os processos de urbanizao esto definidos e regulados contribui para

  • que estas peas interajam entre si com vista a participarem activamente na produo de estruturas inteligveis escala territorial. Ou seja, os sistemas de planeamento e gesto no souberam antecipar, acompanhar ou responder s alteraes verificadas nas lgicas de transformao do territrio.

    2.2. Fragmentao: no territrio e nos processos

    Analisando o processo de urbanizao responsvel pela transformao do territrio do noroeste nacional nas ltimas dcadas, deparamo-nos com um estranho paradoxo:

    Por um lado, possumos um sistema de ordenamento que parte do princpio de que o Estado deve dirigir directamente a totalidade do processo de urbanizao, servindo-se para tal de um amplo conjunto de planos que cobrem todas as escalas. Verifica-se, no entanto, uma clara dificuldade na sua implementao. Os planos de escala mais aproximada (PU e PP), aos quais caberia a formalizao e implementao das estratgias determinadas pelos planos que os antecedem, acabaram por corresponder a um conjunto limitado de casos de excepo, pouco relevante na dimenso do territrio urbanizado. (S, 1998).

    Por outro lado, as estruturas urbanas existentes resultam em grande parte da sucesso de loteamentos que, ainda que legais, se desenvolvem margem do sistema de planeamento. Vejam