Além do materialismo espiritual

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  • ALM DO MATERIALISMO ESPIRITUAL Chgyam Trungpa

    Traduo por Octavio Mendes Cajado Reviso de contedo e forma a cargo do Grupo de Estudos do Dharma de So Paulo

    Ttulo original: Cutting Through Spiritual Materialism Copyright 1973 Chgyam Trungpa Editado no Brasil pela editora Cultrix, na Amrica do Norte pela Shambhala Publications

    "O percurso correto do caminho espiritual um processo muito sutil e no alguma coisa a que possamos atirar-nos

    ingenuamente. Existem numerosos desvios que levam a uma distoro egocentrada da espiritualidade; podemos iludir-nos, imaginando que estamos nos desenvolvendo espiritualmente quando, na verdade, no fazemos seno fortalecer nosso egocentrismo por meio de tcnicas espirituais. A essa distoro bsica pode dar-se o nome de materialismo espiritual."

    Alm do materialismo espiritual a transcrio de duas sries de palestras dadas por Trungpa Rinpoche em 1970-

    71. "As palestras discutem, em primeiro lugar, as vrias maneiras pelas quais as pessoas se envolvem com o materialismo espiritual, as muitas formas de auto-iluso em que os aspirantes podem cair. Depois desse passeio pelos desvios ao longo do trajeto, discutimos o verdadeiro caminho espiritual, em seus contornos mais amplos.

    "O que se apresenta aqui um enfoque budista clssico no no sentido formal, mas no sentido de mostrar o

    cerne do enfoque budista da espiritualidade. Apesar de no ser testa, o caminho budista no contradiz as disciplinas testas. As diferenas entre os caminhos so mais uma questo de nfase e de mtodo. Os problemas bsicos do materialismo espiritual so comuns a todas as disciplinas espirituais."

    Para Chokyi-lodr, o Marpa, Pai da linhagem Kagyu

    Biografia do Autor Chogyam Trungpa, Rinpoche, fundou vrias comunidades contemplativas budistas na Amrica do Norte, sendo as

    duas maiores Karma Dzong, em Boulder, Colorado, e Karm Chling, em Barnet, Vermont. Tambe'm fundou uma comunidade teraputica experimental e criou o Instituto Naropa, entidade acadmica na qual estudantes podem experimentar a interao entre disciplinas budistas e ocidentais. Sendo diretor e principal instrutor desses centros, representa um amigo e mestre de meditao para inmeros alunos.

    Como a dcima primeira encamao do Trungpa Tulku, foi educado desde a infncia, para ser o abade superior dos

    mosteiros Surmang, no leste do Tibete. Aps um longo e rduo treinamento, foi iniciado e entronizado como herdeiro das linhagens de Milarepa e Padmasambhava. Assim, concluiu seus estudos meditativos e intelectuais nas tradies Kagy e Nyingma.

    Obrigado a deixar seu pas em virtude da invaso do Tibete pelos comunistas chineses em 1959, Trungpa passou

    trs anos na ndia, indo depois para a Inglaterra com a finalidade de estudar religio comparada e Psicologia, na Universidade de Oxford. Aps quatro anos em Oxford, fundou o primeiro centro budista tibetano de estudos e meditao no hemisfrio ocidental Samyeling, na Esccia. Em 1970, visitou a Amrica do Norte e, em resposta ao interesse extraordinrio despertado pelos seus ensinamentos, decidiu fixar residncia nos Estados Unidos.

    Lecionou na Universidade do Colorado e tem viajado largamente pelos Estados Unidos e Canad, conduzindo

    seminrios e pronunciando conferncias. autor de uma autobiografia, de dois livros de poesia e outras obras, entre os quais The Myth o f Freedom e Shambala: The Sacred Path of the Warrior.

    O leitor que desejar maiores informaes sobre os centros de Trungpa pode escrever, em ingls, para: Vajradhatu,

    1345 Spruce St., Boulder, Colorado, 80302 U.S.A.; ou, em portugus, para o Grupo de Estudos do Dharma, Caixa Postal 8.312, 01051 So Paulo, SP, Brasil.

  • Introduo A srie de palestras aqui contida foi proferida em Boulder, Colorado, no outono de 1970 e na primavera de 1971.

    Naquela ocasio, estvamos formando Karma Dzong, nosso centro de meditao em Boulder. Embora a maioria de meus alunos fossem sinceros em sua aspirao de seguir o caminho espiritual, traziam para o caminho uma grande dose de confuso, mal-entendidos e expectativas. Desse modo, julguei necessrio apresentar a meus alunos um apanhado geral do caminho, com-algumas advertncias acerca dos perigos que poderiam encontrar ao percorr-lo.

    Parece agora que a publicao dessas palestras poder ser til queles que se interessam por disciplinas espirituais.

    O percurso correto do caminho espiritual um processo muito sutil e no alguma coisa a que possamos atirar-nos ingenuamente. Existem numerosos desvios que levam a uma distoro egocentrada da espiritualidade; podemos iludir-nos imaginando que estamos nos desenvolvendo espiritualmente quando, na verdade, no fazemos seno fortalecer nosso egocentrismo por meio de tcnicas espirituais. A essa distoro bsica pode dar-se o nome de materialismo espiritual.

    As palestras discutem, em primeiro lugar, as vrias maneiras pelas quais as pessoas se envolvem com o

    materialismo espiritual, as muitas formas de auto-iluso em que os aspirantes podem cair. Depois desse passeio pelos desvios ao longo do trajeto, discutimos o verdadeiro caminho espiritual em seus contornos mais amplos.

    O que se apresenta aqui um enfoque budista clssico no no sentido formal, mas no sentido de mostrar o cerne

    do enfoque budista da espiritualidade. Apesar de no ser testa, o caminho budista no contradiz as disciplinas testas. As diferenas entre os caminhos so mais uma questo de nfase e de mtodo. Os problemas bsicos do materialismo espiritual so comuns a todas as disciplinas espiri tuais. O enfoque budista comea com a nossa confuso e o nosso, sofrimento, e atua no sentido de destrinchar sua origem. O enfoque testa comea com a riqueza de Deus e atua no sentido de elevar a conscincia de modo que ela experimente a presena de Deus. Todavia, dado que os obstculos ao relacionamento com Deus so as nossas confuses e negatividades, o enfoque testa tambm precisa lidar com elas. O orgulho espiritual, por exemplo, causa tantos problemas nas disciplinas testas quanto no Budismo.

    De acordo com a tradio budista, o caminho espiritual o processo de atravessar e superar a nossa confuso, de

    descobrir o estado desperto da mente. Quando este estado se encontra entulhado pelo ego e pela parania que o acompanha, assume o carter de um instinto subliminar. Dessa forma, no se trata de construir o estado desperto da mente, mas sim de queimar as confuses que o obstruem. No processo de consumir as confuses, descobrimos a iluminao. Se o processo fosse outro, o estado desperto da mente seria um produto dependente de causa e efeito e, assim, passvel de.dissoluo. Tudo o que criado, mais cedo ou mais tarde, tem de morrer. Se a iluminao fosse criada dessa maneira, haveria sempre a possibilidade de o ego reafirmar-se, provocando um retomo ao estado de confuso. A iluminao permanente porque no a produzimos; apenas a descobrimos. Na tradio budista, a analogia do Sol que surge por trs das nuvens freqentemente empregada para explicar o descobrimento da iluminao. Na prtica da meditao, removemos a confuso do ego a fim de vislumbrar o estado desperto. A ausncia da ignorncia, da sensao de opresso, da parania, descerra uma viso fantstica da vida. Descobrimos um modo diferente de ser.

    O cerne da confuso o fato de o homem ter um senso de ego que lhe parece contnuo e slido. Quando ocorre um

    pensamento, uma emoo, ou um evento, h o sentido de que algum tem conscincia do que est acontecendo. Voc sente que voc est lendo estas palavras. Esse senso do eu, na realidade, um evento transitrio, .descontnuo, que em nossa confuso parece perfeitamente estvel e contnuo. Como tomamos por real a nossa viso confusa, lutamos para manter e incrementar esse eu slido. Tentamos aliment-lo com prazeres e escud-lo contra a dor. A experincia ameaa continuamente revelar-nos nossa transitoriedade, de modo que lutamos continuamente para encobrir qualquer possibilidade de descoberta da nossa verdadeira condio. "Mas", poderamos perguntar, "se a nossa verdadeira condio um estado desperto, por que nos ocupamos tanto em evitar que tomemos conscincia disso?" Porque estamos to imersos em nossa confusa viso do mundo que consideramos real o nico mundo possvel. Essa luta por manter o senso de um eu slido e contnuo obra do ego.

    O ego, contudo, consegue apenas sucesso parcial em sua tentativa de defender-nos do sofrimento. a insatisfao

    que vem junto com a luta do ego que nos inspira a examinar o que estamos fazendo. E, uma vez que sempre existem hiatos na conscincia que temos de ns mesmos, torna-se possvel algum discernimento.

    Uma interessante metfora empregada no Budismo tibetano para descrever o funcionamento do ego a dos 'Trs

    Senhores do Materialismo": o "Senhor da Forma", o "Senhor da Fala", e o "Senhor da Mente". Na discusso que se segue sobre os Trs Senhores, as palavras "materialismo" e "neurtico" dizem respeito ao do ego.

    O Senhor da Forma refere-se perseguio neurtica do conforto fsico, da segurana e do prazer. Nossa sociedade

    altamente organizada e tecnolgica reflete nossa preocupao em manipular o ambiente fsico de modo a nos

  • salvaguardar das irritaes provenientes dos aspectos crus, rudes e imprevisveis da vida. Elevadores acionados por botes de comando, carne empacotada, ar condicionado, privadas com descarga de gua, velrios particulares, planos de aposentadoria, produo em massa, satlites meteorolgicos, mquinas de terraplenagem, luzes fluorescentes, empregos das nove s cinco, televiso tudo so tentativas de criar um mundo controlvel, seguro, previsvel e prazeroso.

    O Senhor da Forma no significa as situaes de vida em si que criamos para serem fisicamente ricas e seguras.

    Refere-se, antes, preocupao neurtica que nos impele a cri-las, a tentar controlar a Natureza. O ego ambiciona assegurar-se e entreter-se, buscando evitar toda